Um espaço para reinventar Portugal como nação de todo o Mundo, que estabeleça pontes, mediações e diálogos entre todos os povos, culturas e civilizações e promova os valores mais universalistas, conforme o símbolo da Esfera Armilar. Há que visar o melhor possível para todos, uma cultura da paz, da compreensão e da fraternidade à escala planetária, orientada não só para o bem da espécie humana, mas também para a preservação da natureza e o bem-estar de todas as formas de vida sencientes.

"Nós, Portugal, o poder ser"

- Fernando Pessoa, Mensagem.

"PALAVRAS E REVOLUÇÕES", por sabel Rosete

"DA ARTE E DO ARTISTA", por Isabel Rosete



«AS VOZES DA FILOSOFIA E DA POESIA, DAS ARTES, AS MINHAS E AS DE ALGUNS OUTROS (poucos, infelizmente), NUNCA SE CALAM! SEMPRE DIZEM A VERDADE/REALIDADE QUE, À SUPOSTA NORMALIDADE E AO DITO POLITICAMENTE CORRECTO, NÃO CONVÉM.
VIVA A "ANORMALIDADE"! VIVA A SAUDÁVEL "LOUCURA" DA RAZÃO DESPERTA!»
Isabel Rosete

BIRD Magazine: TÓPICAS DO TEMPO, por Isabel Rosete e IR [1]

BIRD Magazine: TÓPICAS DO TEMPO, por Isabel Rosete e IR [1]: ISABEL ROSETE Cogitar, estar, vaguear… ou, simplesmente, vacilar entre o amargo de boca do fel e o doce do mel, são estádios existencia...

Isabel Rosete



Eu, Isabel Rosete, apresentando o meu livro "FLUXOS DA MEMÓRIA" no Instituto de Ciência do Som e Bioterapias - Lisboa, 16/04/2016 - a convite da Drª Danuia Pereira Leite​, a quem muito agradeço, assim como a todos os presentes neste evento e a todos os visualizadores deste vídeo realizado pelo Dr. Jorge Rosa​.
Saudações filosófico-poéticas,
Isabel Rosete

BIRD Magazine: CELEBRANDO OS 100 ANOS DO NASCIMENTO DE VERGÍLIO F...

BIRD Magazine: CELEBRANDO OS 100 ANOS DO NASCIMENTO DE VERGÍLIO F...: «No momento exacto em que o projecto romanesco nacional, como eco do único projecto social e historicamente significante, tentava dissolve...

Durante anos ouvi a mesma história da boca da minha mãe, sempre que eu reclamava da vida. Uma família judia de pais, avós, filhos, tios, primos e irmãos, viveu durante anos numa cave até serem encontrados. A comida era escassa, por vezes não havendo senão um pão para partilhar. Do lado de fora, perdido na sua ignorância o homem perseguia o seu semelhante. Do lado de dentro o medo era companhia co

ntinuada. Ana, a filha mais nova fez aniversário. A família fez uma roda, partilhou o pão, dançou e celebrou a vida.

Tento sair do espaço 3 por 4 que desenho no dia a dia, na ilusão de que este é o meu território seguro. Tento que o mundo não seja uma fotocópia a preto e branco, redutora da minha existência. Só consigo quando estou presente ao outro. E outro é sempre tão importante quanto eu - porque sem ele pouco de mim sobraria.

Por isso celebro a minha vida, num momento tão difícil - esse onde descubro o intervalo da minha existência.


Quando a árvore descansa
Da tempestade.
Meu homem sai para o mar
Salga seu corpo
floresce  em mim


Na vila onde nasci, os pescadores cantavam enquanto puxavam a rede.
No equinócio de Março, o mar dançava todos os dias. As sereias descansavam e os homens ficavam a salvo. As esposas agradecidas, bordavam as ondas até o sol cansar e deixar a noite tomar seu lugar.
Nas noites quentes os filhos eram semeados com amor. Do mar vinha o peixe, do campo, o arroz a decorar o prato. Da vizinha do lado, o sorriso e um bom dia a dar conta da vida.
Na vila onde nasci, os olhos viam na noite escura. Abrigavam no corpo todos os corpos. Abraçavam até que o coração encontrasse o de todos e desenhasse um sorriso no rosto.
Na vila onde nasci, um dia,  um homem  perdido de dor, incendiou-nos o corpo.
Nada restou, do lugar, onde vivi, senão a canção que a eternizou.

Venho de longe, de um mar que desconheço
Onde o homem mata tudo que nasce
Os beijos são veneno
E os abraços faca afiada

Que febre é a tua, amor
Que não te reconheço

Venho de uma terra perdida
Morta de morte matada
Seca, sem água
Vermelha de sangue

Que febre é a tua , amor
Que te perco

Os meninos vivem na rua
Abandonados,
Os homens
Sozinhos, sem casa
Morrem de frio e fome
O sangue desenha o chão
Do animal assassinado.
Venho de uma terra perdida
Que me envenenou a vida

Na vila onde nasci,
um homem perdido de dor,
 incendiou a vida.


Na cidade onde vivo,
há listas negras
de pobres endividados.
Ninguém vê na noite escura.
Nem semeia o amor suado.
Nesta cidade de luto,
os homens do povo
Vagueiam perdidos na rua.
De dia e noite, reza o  verbo
Do débito e do crédito
E por mais que se pague
Continuamos devendo.

De onde vens amor
Que te perco!

Quando a tempestade
Seguir caminho
E a árvore puder descansar
Vou deixar que o homem
Salgue meu corpo
Até que ele seja de novo semente








ENFRENTAMOS O ADAMASTOR !

Um punhado de homens numa minúscula caravela…
Ambiciosos? Bravos? Sonhadores? Um pouco disso tudo.
E conseguimos. Fomos mais além e sobrevivemos. Fizemos erros. Acrescentámos bem ao mundo. Descarrilámos.  Aprendemos um pouco mais. Não tudo o que precisamos ainda, hélas!
Aqui e agora a lição do Adamastor é a Dona Branca do capital global operando a coberto dos offshores sem qualquer controle, que se alimenta no velho esquema da pirâmide, sugando sempre mais as frágeis economias, que fareja exemplarmente seja onde for que as possa ir buscar, dando a ilusão de que vem para ajudar a reproduzir lucro em proveito dos que nelas trabalham. E vem de facto, mas a coberto de um esquema de sucção vampírica do produto da força de trabalho escassamente compensada, através de um marketing hipnotizante organizado à volta de valores de consumismo, de valores de posse de um supérfluo que supostamente dará mais bem-estar, mais felicidade, mais prestígio, etc, etc. Conhecemos bem o estilo!
Esta é a raiz, este é o cancro, este é o novo Adamastor que vimos alimentando à custa da nossa própria sobrevivência, levados pela crescente febre de acumulação individual do supérfluo.
Conhecemos bem o desfecho das pirâmides das Donas Brancas. Quando a sua insaciável ganância começa a dar sinais de esgotamento da capacidade de produzir mais-valias em seu proveito, a pirâmide começa a ruir e começa a ruir pela base, ou seja, por aqueles que mais recentemente foram angariados para a alimentar. Estes são os primeiros a falir. Ficam sem recursos. Aqueles que entretanto se apresentaram para os governar e se especializaram em vender ilusões ao serviço dos que os financiam, na condição de que assegurem a perpetuação do esquema piramidal onde voluntariamente aceitaram integrar-se para proveito próprio, tentam desesperadamente manter o esquema em funcionamento. Tornam-se experts na mentira e na manipulação e assim prosseguem até que eles mesmos são engolidos pela pirâmide, que os priva de qualquer autonomia e poder, passando as decisões para o patamar acima, incluindo-os também a eles próprios na vampirização.
De patamar em patamar, os que estão na base vão sendo excluídos e deixados entregues a si próprios, na sua miséria de supérfluo. E aqueles que se lhes seguiam no patamar logo acima e lhes vendiam as ilusões assim seguirão a mesma sorte. E assim sucessivamente até toda a pirâmide ruir.
Donas Brancas, tupperwares, franchisings… Olhemos de perto e veremos o mesmo esquema em acção.
No topo, o ilusório todo-poderoso Adamastor, só o será enquanto o olharmos como um tal.
É a nossa própria ilusão que o alimenta.
Quem melhor do que nós, portugueses, para o enfrentarmos?
Nós sempre acreditámos que para além da escuridão não era o nada, não era a desgraça e que, se ousássemos enfrentá-lo e ultrapassá-lo, com fé, esforço e valentia, encontraríamos novas terras, novas gentes, nova força de vida, nova energia, nova luz.
E assim foi.
Pois agora são os mesmos desafios que enfrentamos.
Nas terras que antes descobrimos crescemos sobretudo pela nossa inerente natureza de aceitação das diferenças, de capacidade de troca. Criamos fortes laços de afecto, de amores, que são os que verdadeiramente perduram e alimentam não só o corpo mas também a alma… É o nosso segredo, a nossa verdadeira riqueza. O tesouro que nada nem ninguém nos pode tirar porque está dentro de cada um de nós. Almas com muitos eons trazemos na memória dos nosso genes esse bem precioso que é o amor fraterno.
A porta de saída desta trapalhada em que nos metemos só pode ser o reencontro com a nossa profunda identidade. É daí que vem a força vital que não se esgota nunca.
Precisamos dirigir para ela o nosso olhar, a ela nos re-ligarmos de novo. Ao fazê-lo vamos perceber que não estamos sós.
O espaço da Lusofonia a que ficámos ligados pelo afecto e pela língua dos nosso antepassados está vivo e nele podemos mesmo encontrar alguns excelentes exemplos de uma busca mais certa de fraternos valores de crescimento colectivo, de justa distribuição dos bens disponíveis, de promoção do aproveitamento cuidado dos bens que a natureza mãe põe ao nosso dispor.
Até esses – Terra, Mar – fomos proibidos de usar em nosso proveito! E mesmo o Ar (símbolo de “inteligência e conhecimento”) se vem escapando da nossa terra caindo na mesma malha da exploração da mais-valias que ajuda a criar noutras paragens.
A Lusofonia – lembremos os nossos irmãos de Timor e do Brasil – vem reflectindo a nossa identidade comum no seu melhor, capazes de lutar por seus valores na luta pela construção de verdadeiras democracias – poder do povo.
Nada mais justo do que a proposta de Lula para presidente da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
A pirâmide vampírica em que a economia mundial se tornou dá sinais de derrocada.
Mais cedo ou mais tarde, seremos obrigados a recuperar os valores certos de dignidade do ser humano, só possível na fraterna cooperação e justa distribuição dos bens essenciais. Quanto mais cedo o percebermos e nos juntarmos aos que já se desenham no pelotão da frente dessa busca mais cedo também recuperaremos a nossa dignidade e a nossa identidade.
Somos todos diferentes e todos uma só humanidade. Nós, portugueses, sabemos que é na conjugação fraterna das diversas identidades, no que de melhor cada uma tem para oferecer, que está a luz que ilumina e nos guia no caminho certo para a viagem que nos revelará plenamente na nossa verdadeira humanidade.
 É esse o sonho realidade do culto português do Espírito Santo que a todos nós habita, ou seja, da força vital do Amor Fraterno em Acção.
É esse o Portugal que reconhecemos como nosso.
A nossa Fratria, a Língua portuguesa, o Reino da Consciolândia, o sonho real, a nossa verdade que podemos e devemos partilhar com o mundo.
No entretanto pedem-nos para votar. Todos imploram unidade do que querem fazer crer como o centro. Centro de quê? De mais do mesmo. E mesmo aí, implorando unidade forte, se revelam bem fracos pois tudo fazem para criar falsas fracturas, sedentos do domínio lacaio do falso poder.
Será que só na rua a unidade livre, vinda do poder de dentro de cada um, pode manifestar-se, pode crescer, pode impor-se?
Por agora só consigo votar no candidato da Lusofonia: Lula…
URGENTE: Lula e Dilma portugueses PROCURAM-SE!

Carminda H. Proença

Benjamin

Na partida, Benjamin avisou-me que teríamos de fazer uma paragem. Perguntei onde e porquê, mas Benjamin pediu-me paciência.

- Há coisas que não se explicam, Hannah...

O nosso destino era vago: alcançarmos o Extremo Oriente. Vi homens baixos, vi outros tão altos que mal lhes reconheci o contorno da cabeça. Dormi debaixo de árvores gigantes que me abrigaram nas noites chuvosas. Sem pressa, deixei que o corpo se adaptasse ao calor húmido da floresta e ao ar rarefeito das montanhas. Acompanhei o sol, e a noite foi sendo sempre noite no meu corpo viajante. Alguns dos nossos companheiros ficaram em Goa, outros seguiram caminho para oeste. Eu e Benjamin, continuámos a caminhar para leste.

Benjamin acordou cedo. Retirou da mochila um pião rendado, em prata.
- O que é isso, Ben?
- É a encomenda que tenho de entregar...
Já tinha esquecido. Há tantos meses a viajar, só agora dei conta que o meu amigo limpava a peça todas as manhãs.

Lembro-me do pião que o meu pai me deu, num passe de mágica rodopiava, ganhava velocidade. Da pequena peça de madeira só vislumbrava o tempo que voava. Uma bruma fina envolvia o brinquedo que parecia imóvel, centrado em si mesmo. Depois, cansado, cambaleava como se estivesse bêbado, acabando por cair tombado de lado.

Memórias que o tempo roubou e tu, Benjamin acabas de me devolver.
- Ben, lembras do dreidel*?
- Em cada face uma letra do alfabeto hebraico: Nun, Gimmel, Heh and Shin...
- "Nes Gadol Hayah Sham" ("Um grande Milagre Aconteceu")...

Benjamin é meu amigo infância. Na escola aprendemos a ler, cantámos as letras do alfabeto hebraico, uma a uma a formarem palavras encantadas. Na escola, cantou comigo no Pessah* - Ma Nishtaná halaila hazé micol haleilot? (Porque esta noite não é em nada igual a todas as outras noites?).

- Lembras, Ben? Hailala hazé...

Depois da escola primária, mudei de cidade, cresci longe de Ben. O yiddish foi sendo esquecido e do hebraico só sei escrever o meu nome: הַנְנַה
Um pequeno pião de prata lembrou-me criança.
- Isto é um pião estranho, Ben...
Benjamin sorriu.
- Nem tudo que parece é, Hannah.

Continuámos a viajar, agora junto ao mar. Em cada aldeia, um novo peixe. Nossa pele mudou de cor. Meu corpo salgou no corpo de Benjamin. Semente de um novo amor.
- Por onde me levas, Ben?
Silencioso, Benjamin calava meus lábios na sua boca sempre entreaberta.
À noite casavamos as nossas vontades. De manhã, ríamos delas.
- Para onde vamos, Ben?
- Sempre a oriente, Hannah...
Quando o corpo está apaixonado pede o corpo do amado. Sem ele, parece morrer. Com ele encontra a morte, feliz, num breve e longo instante.

O dia encontrava a noite. A noite amanhecia. Benjamin, todas as manhãs, delicadamente limpava o pião de prata. Quinze minutos diários, focados na renda fina.
- Que pião é esse, Ben?
- Em breve, Hannah, vais saber. Quando a hora for hora...
Benjamin nunca teve pressa com nada. Quando dança, rodopia, sempre centrado no eixo. Quando pára, tomba devagar.

Um longo abraço marcou o reencontro com Leo, nosso companheiro de viagem.
- Como vieste aqui parar, se seguiste para ocidente? - perguntei
- Fiz um desvio e outro, pelo caminho. Perdi-me, encontrei-me. Entre um e outro, parei...
Os meus amigos sempre foram assim. Entre o sim e o não … existem.

Com Leo, fomos ficando na aldeia à beira-mar. De madrugada, acordavam e partiam com os pescadores. À tarde, regressavam com o jantar. Cansado Ben, salgava meu corpo, lentamente.

- Está na hora de partir, Hannah...
- Quando?
- Amanhã. Não leves nada contigo, a não ser a roupa que trazes vestida. Uma mochila leve, com um pequeno agasalho...
- Mas o que faço com o resto?
- Dá a quem precisa, Hannah. Alivia o peso. Não precisas de mais nada, senão do teu corpo leve.
Contrariada, deixei minha mala de viagem. Nela, meus sapatos novos, livros e roupas usadas. Enrolei meu diário velho no casaco que guardei na mochila.
- Hannah, o que viveste está desenhado no teu corpo...
- Tenho medo de esquecer, Ben.
Nessa noite, adormecemos abraçados. Senti seu coração, ritmado com o meu. Um ar morno, manso, viajou entre as nossas bocas.
Antes do sol nascer, despedimo-nos de Leo. Um abraço prolongado, silencioso, marcou o nosso adeus.

Antes, Ben afagou de novo o pião. Desta vez, enrolou-o cuidadosamente num longo pano de linho branco. Deu voltas e voltas, até que o pião deixasse de ser a peça de prata rendada e não fosse mais que uma trouxa de pano. Em seguida, guardou-o na sua velha mochila.
- É esta a tua única bagagem, querido?
- Sim, Hannah...
Sei quando Ben não quer falar. Aprendi com ele a gostar de cada intervalo pausado, dar espaço a todos ruídos, encontrar o som do vento, identificar o canto diferenciado de cada pássaro, ou simplesmente ouvir o som mudo do silêncio que se alonga no outro.

Caminhámos calados, passo a passo, entre aldeias. Caminhámos de mãos dadas, sem nunca nos tocarmos. Ben seguia ao meu lado, tranquilo. Uma paz estranha tomou conta de mim.
Poucas semanas antes, soube do falecimento da minha avó. Meu coração ficou pequeno. Apertado, encontrou a dor. Chorei de mansinho, junto com a noite - toda a noite. De manhã entreguei ao mar a saudade que sinto dela. Desembocou no oceano, espalhou-se por todos os mares, encontrou outras águas, doces e salgadas, irrigou o campo, semeou a terra. Até já, avó.

O sol disse adeus antes do anoitecer.
- Vamos descansar. Ainda temos umas horas de caminho.
Ben sentou-se em cima de um pedaço de pedra. Eu sentei-me no chão, junto a ele. Com a cabeça em seu colo adormeci.
- Acorda, Hannah. Temos de seguir...
Em que instante mudamos? Uma dor estranha aparece no peito, como uma flor que desabrocha, a mesma que nos acolhe quando nascemos. Quantas vezes mudamos, antes de morrermos?

Quanto mais rápido rodopia o pião, mais imóvel parece ao nosso olhar.
- Ben, para onde nos levas? - perguntou meu coração baixinho. Uma nova flor desabrochava em meu peito.
- Para um lugar sem nome, que te acolhe sem nada te perguntar. - respondeu-me, sem falar.
Já passava da meia-noite quando chegámos a esse lugar, que nada pergunta, nem quer saber. Onde a lua nasce e volta a nascer, todas as noites. Dia após dia.

Não me lembro se vi alguém. A aldeia é pequena. O chão de terra batida, vermelho. As casas pequenas, brancas. Em todas, chega-se à sala depois de descermos três degraus. Parece que nunca saímos do mesmo lugar. Como o pião, veloz. Imóvel.

Benjamin entrou em três casas. De cada uma trouxe uma coisa. Na primeira, um cobertor, na segunda duas tigelas de arroz, na terceira ervas para o chá. Convidou-me a entrar na quarta casa da vila.
- Descansa agora, Hannah. Vou ter de sair.

Quieta, vi Benjamin abrir a mochila, e tirar a trouxa branca de linho. Antes de sair, abraçou-me carinhosamente. Calou meus anseios em seus lábios. Doce, cantou baixinho, Ma Nishtaná halaila hazé micol haleilot...
- Até já, pequena Hannah...

Cansada, adormeci sem nada questionar. Meu corpo colava ao colchão de algodão. Um tapete vermelho, cobria o chão do ar fresco da noite. No ar, o cheiro da madrugada. Meu corpo cansado, fugia da dor anunciada. Não me lembro da cor do céu. Sei das estrelas a dançar de par em par. Não me lembro de nada até aquela manhã, quando acordei quase sem ar. Uma flor nascia no ventre, teimava em desabrochar. Com medo, eu não permitia.
Saí de casa, apressada.

- Ben, qual foi a casa que te abrigou nesta noite que não regressaste ao corpo da mulher amada?
Como resposta, um silêncio profundo pesou no meu corpo.
- Ben! - perguntei sem descanso, numa terra que nada questionava, sequer se importava em saber a resposta.

Uma nuvem branca, saía da chaminé da casa que nos deu de comer: a casa do meio.
Corri, sem pensar. Em algum lugar do meu ser, eu sabia a resposta. Essa que adivinhei desde o primeiro dia da nossa viagem. Alcançar o extremo oriente, era o nosso destino.

Onde fica o extremo do nada? Caminhámos, sem destino sabendo dele, desde que partimos. Onde fica a chegada, se não existe o fim? Se nada existe, explica-me esta dor que dilareça o meu peito, Ben!

A casa tinha a porta aberta. Três degraus levam o visitante à sala. Cheira ao ar manso, morno da boca de Ben. O vento entra e faz rodar um pião de prata rendada. O pião espalha pelo ar, um pó branco, fino, formando uma nuvem branca, por toda a sala. A mesma que vi sair da chaminé.
Aspiro o ar. “Nes Gadol Hayah Sham”

- Ben! - meus olhos choram, meu corpo treme entre a alegria e a tristeza, canto:

Esperei-te em silêncio,
num recanto qualquer
da minha existência
Esperei sem descanso


tantos abraços dei
enquanto partias
beijos vencidos
na despedida


fosses tu de pedra
inventava o amor eterno
esse que o tempo gasta
sem que os olhos vejam

Divino é o pó
em que tornas ao mundo
na terra, no ar, nos oceanos
Multiplicas-te em todos
em cada um

Esperei-te em silêncio
num recanto qualquer
No meu corpo salgado

Estás em tudo e em todos
Eterno é o teu descanso
Até sempre, Benjamin.



* Dreidel - (Yiddish; sevivon em hebraico) é um pequeno pião quadrado comumente dados as crianças durante Hanukkah (festa que dura oito dias e comemora a reedificacão do templo de Jerusalem feita por Judas Macabeu).

* Pessach - também conhecida como Páscoa judaica celebra e recorda a libertação do povo de Israel do Egito, conforme narrado no livro de Shemot (Êxodo).

"PALAVRAS E REVOLUÇÕES", por sabel Rosete

"DA ARTE E DO ARTISTA", por Isabel Rosete



«AS VOZES DA FILOSOFIA E DA POESIA, DAS ARTES, AS MINHAS E AS DE ALGUNS OUTROS (poucos, infelizmente), NUNCA SE CALAM! SEMPRE DIZEM A VERDADE/REALIDADE QUE, À SUPOSTA NORMALIDADE E AO DITO POLITICAMENTE CORRECTO, NÃO CONVÉM.
VIVA A "ANORMALIDADE"! VIVA A SAUDÁVEL "LOUCURA" DA RAZÃO DESPERTA!»
Isabel Rosete

BIRD Magazine: TÓPICAS DO TEMPO, por Isabel Rosete e IR [1]

BIRD Magazine: TÓPICAS DO TEMPO, por Isabel Rosete e IR [1]: ISABEL ROSETE Cogitar, estar, vaguear… ou, simplesmente, vacilar entre o amargo de boca do fel e o doce do mel, são estádios existencia...

Isabel Rosete



Eu, Isabel Rosete, apresentando o meu livro "FLUXOS DA MEMÓRIA" no Instituto de Ciência do Som e Bioterapias - Lisboa, 16/04/2016 - a convite da Drª Danuia Pereira Leite​, a quem muito agradeço, assim como a todos os presentes neste evento e a todos os visualizadores deste vídeo realizado pelo Dr. Jorge Rosa​.
Saudações filosófico-poéticas,
Isabel Rosete

BIRD Magazine: CELEBRANDO OS 100 ANOS DO NASCIMENTO DE VERGÍLIO F...

BIRD Magazine: CELEBRANDO OS 100 ANOS DO NASCIMENTO DE VERGÍLIO F...: «No momento exacto em que o projecto romanesco nacional, como eco do único projecto social e historicamente significante, tentava dissolve...
Durante anos ouvi a mesma história da boca da minha mãe, sempre que eu reclamava da vida. Uma família judia de pais, avós, filhos, tios, primos e irmãos, viveu durante anos numa cave até serem encontrados. A comida era escassa, por vezes não havendo senão um pão para partilhar. Do lado de fora, perdido na sua ignorância o homem perseguia o seu semelhante. Do lado de dentro o medo era companhia co
ntinuada. Ana, a filha mais nova fez aniversário. A família fez uma roda, partilhou o pão, dançou e celebrou a vida.

Tento sair do espaço 3 por 4 que desenho no dia a dia, na ilusão de que este é o meu território seguro. Tento que o mundo não seja uma fotocópia a preto e branco, redutora da minha existência. Só consigo quando estou presente ao outro. E outro é sempre tão importante quanto eu - porque sem ele pouco de mim sobraria.

Por isso celebro a minha vida, num momento tão difícil - esse onde descubro o intervalo da minha existência.

Quando a árvore descansa
Da tempestade.
Meu homem sai para o mar
Salga seu corpo
floresce  em mim


Na vila onde nasci, os pescadores cantavam enquanto puxavam a rede.
No equinócio de Março, o mar dançava todos os dias. As sereias descansavam e os homens ficavam a salvo. As esposas agradecidas, bordavam as ondas até o sol cansar e deixar a noite tomar seu lugar.
Nas noites quentes os filhos eram semeados com amor. Do mar vinha o peixe, do campo, o arroz a decorar o prato. Da vizinha do lado, o sorriso e um bom dia a dar conta da vida.
Na vila onde nasci, os olhos viam na noite escura. Abrigavam no corpo todos os corpos. Abraçavam até que o coração encontrasse o de todos e desenhasse um sorriso no rosto.
Na vila onde nasci, um dia,  um homem  perdido de dor, incendiou-nos o corpo.
Nada restou, do lugar, onde vivi, senão a canção que a eternizou.

Venho de longe, de um mar que desconheço
Onde o homem mata tudo que nasce
Os beijos são veneno
E os abraços faca afiada

Que febre é a tua, amor
Que não te reconheço

Venho de uma terra perdida
Morta de morte matada
Seca, sem água
Vermelha de sangue

Que febre é a tua , amor
Que te perco

Os meninos vivem na rua
Abandonados,
Os homens
Sozinhos, sem casa
Morrem de frio e fome
O sangue desenha o chão
Do animal assassinado.
Venho de uma terra perdida
Que me envenenou a vida

Na vila onde nasci,
um homem perdido de dor,
 incendiou a vida.


Na cidade onde vivo,
há listas negras
de pobres endividados.
Ninguém vê na noite escura.
Nem semeia o amor suado.
Nesta cidade de luto,
os homens do povo
Vagueiam perdidos na rua.
De dia e noite, reza o  verbo
Do débito e do crédito
E por mais que se pague
Continuamos devendo.

De onde vens amor
Que te perco!

Quando a tempestade
Seguir caminho
E a árvore puder descansar
Vou deixar que o homem
Salgue meu corpo
Até que ele seja de novo semente







ENFRENTAMOS O ADAMASTOR !

Um punhado de homens numa minúscula caravela…
Ambiciosos? Bravos? Sonhadores? Um pouco disso tudo.
E conseguimos. Fomos mais além e sobrevivemos. Fizemos erros. Acrescentámos bem ao mundo. Descarrilámos.  Aprendemos um pouco mais. Não tudo o que precisamos ainda, hélas!
Aqui e agora a lição do Adamastor é a Dona Branca do capital global operando a coberto dos offshores sem qualquer controle, que se alimenta no velho esquema da pirâmide, sugando sempre mais as frágeis economias, que fareja exemplarmente seja onde for que as possa ir buscar, dando a ilusão de que vem para ajudar a reproduzir lucro em proveito dos que nelas trabalham. E vem de facto, mas a coberto de um esquema de sucção vampírica do produto da força de trabalho escassamente compensada, através de um marketing hipnotizante organizado à volta de valores de consumismo, de valores de posse de um supérfluo que supostamente dará mais bem-estar, mais felicidade, mais prestígio, etc, etc. Conhecemos bem o estilo!
Esta é a raiz, este é o cancro, este é o novo Adamastor que vimos alimentando à custa da nossa própria sobrevivência, levados pela crescente febre de acumulação individual do supérfluo.
Conhecemos bem o desfecho das pirâmides das Donas Brancas. Quando a sua insaciável ganância começa a dar sinais de esgotamento da capacidade de produzir mais-valias em seu proveito, a pirâmide começa a ruir e começa a ruir pela base, ou seja, por aqueles que mais recentemente foram angariados para a alimentar. Estes são os primeiros a falir. Ficam sem recursos. Aqueles que entretanto se apresentaram para os governar e se especializaram em vender ilusões ao serviço dos que os financiam, na condição de que assegurem a perpetuação do esquema piramidal onde voluntariamente aceitaram integrar-se para proveito próprio, tentam desesperadamente manter o esquema em funcionamento. Tornam-se experts na mentira e na manipulação e assim prosseguem até que eles mesmos são engolidos pela pirâmide, que os priva de qualquer autonomia e poder, passando as decisões para o patamar acima, incluindo-os também a eles próprios na vampirização.
De patamar em patamar, os que estão na base vão sendo excluídos e deixados entregues a si próprios, na sua miséria de supérfluo. E aqueles que se lhes seguiam no patamar logo acima e lhes vendiam as ilusões assim seguirão a mesma sorte. E assim sucessivamente até toda a pirâmide ruir.
Donas Brancas, tupperwares, franchisings… Olhemos de perto e veremos o mesmo esquema em acção.
No topo, o ilusório todo-poderoso Adamastor, só o será enquanto o olharmos como um tal.
É a nossa própria ilusão que o alimenta.
Quem melhor do que nós, portugueses, para o enfrentarmos?
Nós sempre acreditámos que para além da escuridão não era o nada, não era a desgraça e que, se ousássemos enfrentá-lo e ultrapassá-lo, com fé, esforço e valentia, encontraríamos novas terras, novas gentes, nova força de vida, nova energia, nova luz.
E assim foi.
Pois agora são os mesmos desafios que enfrentamos.
Nas terras que antes descobrimos crescemos sobretudo pela nossa inerente natureza de aceitação das diferenças, de capacidade de troca. Criamos fortes laços de afecto, de amores, que são os que verdadeiramente perduram e alimentam não só o corpo mas também a alma… É o nosso segredo, a nossa verdadeira riqueza. O tesouro que nada nem ninguém nos pode tirar porque está dentro de cada um de nós. Almas com muitos eons trazemos na memória dos nosso genes esse bem precioso que é o amor fraterno.
A porta de saída desta trapalhada em que nos metemos só pode ser o reencontro com a nossa profunda identidade. É daí que vem a força vital que não se esgota nunca.
Precisamos dirigir para ela o nosso olhar, a ela nos re-ligarmos de novo. Ao fazê-lo vamos perceber que não estamos sós.
O espaço da Lusofonia a que ficámos ligados pelo afecto e pela língua dos nosso antepassados está vivo e nele podemos mesmo encontrar alguns excelentes exemplos de uma busca mais certa de fraternos valores de crescimento colectivo, de justa distribuição dos bens disponíveis, de promoção do aproveitamento cuidado dos bens que a natureza mãe põe ao nosso dispor.
Até esses – Terra, Mar – fomos proibidos de usar em nosso proveito! E mesmo o Ar (símbolo de “inteligência e conhecimento”) se vem escapando da nossa terra caindo na mesma malha da exploração da mais-valias que ajuda a criar noutras paragens.
A Lusofonia – lembremos os nossos irmãos de Timor e do Brasil – vem reflectindo a nossa identidade comum no seu melhor, capazes de lutar por seus valores na luta pela construção de verdadeiras democracias – poder do povo.
Nada mais justo do que a proposta de Lula para presidente da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
A pirâmide vampírica em que a economia mundial se tornou dá sinais de derrocada.
Mais cedo ou mais tarde, seremos obrigados a recuperar os valores certos de dignidade do ser humano, só possível na fraterna cooperação e justa distribuição dos bens essenciais. Quanto mais cedo o percebermos e nos juntarmos aos que já se desenham no pelotão da frente dessa busca mais cedo também recuperaremos a nossa dignidade e a nossa identidade.
Somos todos diferentes e todos uma só humanidade. Nós, portugueses, sabemos que é na conjugação fraterna das diversas identidades, no que de melhor cada uma tem para oferecer, que está a luz que ilumina e nos guia no caminho certo para a viagem que nos revelará plenamente na nossa verdadeira humanidade.
 É esse o sonho realidade do culto português do Espírito Santo que a todos nós habita, ou seja, da força vital do Amor Fraterno em Acção.
É esse o Portugal que reconhecemos como nosso.
A nossa Fratria, a Língua portuguesa, o Reino da Consciolândia, o sonho real, a nossa verdade que podemos e devemos partilhar com o mundo.
No entretanto pedem-nos para votar. Todos imploram unidade do que querem fazer crer como o centro. Centro de quê? De mais do mesmo. E mesmo aí, implorando unidade forte, se revelam bem fracos pois tudo fazem para criar falsas fracturas, sedentos do domínio lacaio do falso poder.
Será que só na rua a unidade livre, vinda do poder de dentro de cada um, pode manifestar-se, pode crescer, pode impor-se?
Por agora só consigo votar no candidato da Lusofonia: Lula…
URGENTE: Lula e Dilma portugueses PROCURAM-SE!

Carminda H. Proença

Benjamin

Na partida, Benjamin avisou-me que teríamos de fazer uma paragem. Perguntei onde e porquê, mas Benjamin pediu-me paciência.

- Há coisas que não se explicam, Hannah...

O nosso destino era vago: alcançarmos o Extremo Oriente. Vi homens baixos, vi outros tão altos que mal lhes reconheci o contorno da cabeça. Dormi debaixo de árvores gigantes que me abrigaram nas noites chuvosas. Sem pressa, deixei que o corpo se adaptasse ao calor húmido da floresta e ao ar rarefeito das montanhas. Acompanhei o sol, e a noite foi sendo sempre noite no meu corpo viajante. Alguns dos nossos companheiros ficaram em Goa, outros seguiram caminho para oeste. Eu e Benjamin, continuámos a caminhar para leste.

Benjamin acordou cedo. Retirou da mochila um pião rendado, em prata.
- O que é isso, Ben?
- É a encomenda que tenho de entregar...
Já tinha esquecido. Há tantos meses a viajar, só agora dei conta que o meu amigo limpava a peça todas as manhãs.

Lembro-me do pião que o meu pai me deu, num passe de mágica rodopiava, ganhava velocidade. Da pequena peça de madeira só vislumbrava o tempo que voava. Uma bruma fina envolvia o brinquedo que parecia imóvel, centrado em si mesmo. Depois, cansado, cambaleava como se estivesse bêbado, acabando por cair tombado de lado.

Memórias que o tempo roubou e tu, Benjamin acabas de me devolver.
- Ben, lembras do dreidel*?
- Em cada face uma letra do alfabeto hebraico: Nun, Gimmel, Heh and Shin...
- "Nes Gadol Hayah Sham" ("Um grande Milagre Aconteceu")...

Benjamin é meu amigo infância. Na escola aprendemos a ler, cantámos as letras do alfabeto hebraico, uma a uma a formarem palavras encantadas. Na escola, cantou comigo no Pessah* - Ma Nishtaná halaila hazé micol haleilot? (Porque esta noite não é em nada igual a todas as outras noites?).

- Lembras, Ben? Hailala hazé...

Depois da escola primária, mudei de cidade, cresci longe de Ben. O yiddish foi sendo esquecido e do hebraico só sei escrever o meu nome: הַנְנַה
Um pequeno pião de prata lembrou-me criança.
- Isto é um pião estranho, Ben...
Benjamin sorriu.
- Nem tudo que parece é, Hannah.

Continuámos a viajar, agora junto ao mar. Em cada aldeia, um novo peixe. Nossa pele mudou de cor. Meu corpo salgou no corpo de Benjamin. Semente de um novo amor.
- Por onde me levas, Ben?
Silencioso, Benjamin calava meus lábios na sua boca sempre entreaberta.
À noite casavamos as nossas vontades. De manhã, ríamos delas.
- Para onde vamos, Ben?
- Sempre a oriente, Hannah...
Quando o corpo está apaixonado pede o corpo do amado. Sem ele, parece morrer. Com ele encontra a morte, feliz, num breve e longo instante.

O dia encontrava a noite. A noite amanhecia. Benjamin, todas as manhãs, delicadamente limpava o pião de prata. Quinze minutos diários, focados na renda fina.
- Que pião é esse, Ben?
- Em breve, Hannah, vais saber. Quando a hora for hora...
Benjamin nunca teve pressa com nada. Quando dança, rodopia, sempre centrado no eixo. Quando pára, tomba devagar.

Um longo abraço marcou o reencontro com Leo, nosso companheiro de viagem.
- Como vieste aqui parar, se seguiste para ocidente? - perguntei
- Fiz um desvio e outro, pelo caminho. Perdi-me, encontrei-me. Entre um e outro, parei...
Os meus amigos sempre foram assim. Entre o sim e o não … existem.

Com Leo, fomos ficando na aldeia à beira-mar. De madrugada, acordavam e partiam com os pescadores. À tarde, regressavam com o jantar. Cansado Ben, salgava meu corpo, lentamente.

- Está na hora de partir, Hannah...
- Quando?
- Amanhã. Não leves nada contigo, a não ser a roupa que trazes vestida. Uma mochila leve, com um pequeno agasalho...
- Mas o que faço com o resto?
- Dá a quem precisa, Hannah. Alivia o peso. Não precisas de mais nada, senão do teu corpo leve.
Contrariada, deixei minha mala de viagem. Nela, meus sapatos novos, livros e roupas usadas. Enrolei meu diário velho no casaco que guardei na mochila.
- Hannah, o que viveste está desenhado no teu corpo...
- Tenho medo de esquecer, Ben.
Nessa noite, adormecemos abraçados. Senti seu coração, ritmado com o meu. Um ar morno, manso, viajou entre as nossas bocas.
Antes do sol nascer, despedimo-nos de Leo. Um abraço prolongado, silencioso, marcou o nosso adeus.

Antes, Ben afagou de novo o pião. Desta vez, enrolou-o cuidadosamente num longo pano de linho branco. Deu voltas e voltas, até que o pião deixasse de ser a peça de prata rendada e não fosse mais que uma trouxa de pano. Em seguida, guardou-o na sua velha mochila.
- É esta a tua única bagagem, querido?
- Sim, Hannah...
Sei quando Ben não quer falar. Aprendi com ele a gostar de cada intervalo pausado, dar espaço a todos ruídos, encontrar o som do vento, identificar o canto diferenciado de cada pássaro, ou simplesmente ouvir o som mudo do silêncio que se alonga no outro.

Caminhámos calados, passo a passo, entre aldeias. Caminhámos de mãos dadas, sem nunca nos tocarmos. Ben seguia ao meu lado, tranquilo. Uma paz estranha tomou conta de mim.
Poucas semanas antes, soube do falecimento da minha avó. Meu coração ficou pequeno. Apertado, encontrou a dor. Chorei de mansinho, junto com a noite - toda a noite. De manhã entreguei ao mar a saudade que sinto dela. Desembocou no oceano, espalhou-se por todos os mares, encontrou outras águas, doces e salgadas, irrigou o campo, semeou a terra. Até já, avó.

O sol disse adeus antes do anoitecer.
- Vamos descansar. Ainda temos umas horas de caminho.
Ben sentou-se em cima de um pedaço de pedra. Eu sentei-me no chão, junto a ele. Com a cabeça em seu colo adormeci.
- Acorda, Hannah. Temos de seguir...
Em que instante mudamos? Uma dor estranha aparece no peito, como uma flor que desabrocha, a mesma que nos acolhe quando nascemos. Quantas vezes mudamos, antes de morrermos?

Quanto mais rápido rodopia o pião, mais imóvel parece ao nosso olhar.
- Ben, para onde nos levas? - perguntou meu coração baixinho. Uma nova flor desabrochava em meu peito.
- Para um lugar sem nome, que te acolhe sem nada te perguntar. - respondeu-me, sem falar.
Já passava da meia-noite quando chegámos a esse lugar, que nada pergunta, nem quer saber. Onde a lua nasce e volta a nascer, todas as noites. Dia após dia.

Não me lembro se vi alguém. A aldeia é pequena. O chão de terra batida, vermelho. As casas pequenas, brancas. Em todas, chega-se à sala depois de descermos três degraus. Parece que nunca saímos do mesmo lugar. Como o pião, veloz. Imóvel.

Benjamin entrou em três casas. De cada uma trouxe uma coisa. Na primeira, um cobertor, na segunda duas tigelas de arroz, na terceira ervas para o chá. Convidou-me a entrar na quarta casa da vila.
- Descansa agora, Hannah. Vou ter de sair.

Quieta, vi Benjamin abrir a mochila, e tirar a trouxa branca de linho. Antes de sair, abraçou-me carinhosamente. Calou meus anseios em seus lábios. Doce, cantou baixinho, Ma Nishtaná halaila hazé micol haleilot...
- Até já, pequena Hannah...

Cansada, adormeci sem nada questionar. Meu corpo colava ao colchão de algodão. Um tapete vermelho, cobria o chão do ar fresco da noite. No ar, o cheiro da madrugada. Meu corpo cansado, fugia da dor anunciada. Não me lembro da cor do céu. Sei das estrelas a dançar de par em par. Não me lembro de nada até aquela manhã, quando acordei quase sem ar. Uma flor nascia no ventre, teimava em desabrochar. Com medo, eu não permitia.
Saí de casa, apressada.

- Ben, qual foi a casa que te abrigou nesta noite que não regressaste ao corpo da mulher amada?
Como resposta, um silêncio profundo pesou no meu corpo.
- Ben! - perguntei sem descanso, numa terra que nada questionava, sequer se importava em saber a resposta.

Uma nuvem branca, saía da chaminé da casa que nos deu de comer: a casa do meio.
Corri, sem pensar. Em algum lugar do meu ser, eu sabia a resposta. Essa que adivinhei desde o primeiro dia da nossa viagem. Alcançar o extremo oriente, era o nosso destino.

Onde fica o extremo do nada? Caminhámos, sem destino sabendo dele, desde que partimos. Onde fica a chegada, se não existe o fim? Se nada existe, explica-me esta dor que dilareça o meu peito, Ben!

A casa tinha a porta aberta. Três degraus levam o visitante à sala. Cheira ao ar manso, morno da boca de Ben. O vento entra e faz rodar um pião de prata rendada. O pião espalha pelo ar, um pó branco, fino, formando uma nuvem branca, por toda a sala. A mesma que vi sair da chaminé.
Aspiro o ar. “Nes Gadol Hayah Sham”

- Ben! - meus olhos choram, meu corpo treme entre a alegria e a tristeza, canto:

Esperei-te em silêncio,
num recanto qualquer
da minha existência
Esperei sem descanso


tantos abraços dei
enquanto partias
beijos vencidos
na despedida


fosses tu de pedra
inventava o amor eterno
esse que o tempo gasta
sem que os olhos vejam

Divino é o pó
em que tornas ao mundo
na terra, no ar, nos oceanos
Multiplicas-te em todos
em cada um

Esperei-te em silêncio
num recanto qualquer
No meu corpo salgado

Estás em tudo e em todos
Eterno é o teu descanso
Até sempre, Benjamin.



* Dreidel - (Yiddish; sevivon em hebraico) é um pequeno pião quadrado comumente dados as crianças durante Hanukkah (festa que dura oito dias e comemora a reedificacão do templo de Jerusalem feita por Judas Macabeu).

* Pessach - também conhecida como Páscoa judaica celebra e recorda a libertação do povo de Israel do Egito, conforme narrado no livro de Shemot (Êxodo).