Um espaço para reinventar Portugal como nação de todo o Mundo, que estabeleça pontes, mediações e diálogos entre todos os povos, culturas e civilizações e promova os valores mais universalistas, conforme o símbolo da Esfera Armilar. Há que visar o melhor possível para todos, uma cultura da paz, da compreensão e da fraternidade à escala planetária, orientada não só para o bem da espécie humana, mas também para a preservação da natureza e o bem-estar de todas as formas de vida sencientes.

"Nós, Portugal, o poder ser"

- Fernando Pessoa, Mensagem.

Morrer como um touro

O Ministério da Cultura resolveu criar uma secção de tauromaquia no Conselho Nacional de Cultura a pretexto de que lidar touros seria uma tradição cultural portuguesa a preservar. Mas a tradição é mais antiga, do tempo em que humanos e animais lutavam na arena para excitar os nervos da multidão com o sangue e a morte anunciada. A piedade, que é um valor mais antigo do que Cristo, veio, na sua interpretação cristã, salvar disto os humanos. Esqueceu-se, porém, dos animais.

Há um momento nas touradas em que o touro, muito ferido já pelas bandarilhas, o sangue a escorrer, cansado pelos cavalos e as capas, titubeia e parece ir desistir. Afasta-se para as tábuas. Cheira o céu. Vêm os homens e incitam-no. A multidão agita-se e delira com o sangue. O touro sabe que vai morrer. Só os imbecis podem pensar que os animais não sabem. Os empregados dos matadouros, profissionais da sensibilidade embaciada, conhecem o momento em que os animais “cheiram” a morte iminente. Por desespero, coragem ou raiva (não é o mesmo?), o touro arremete pela última vez. Em Espanha morre. Aqui, neste país de maricas, é levado lá para fora para, como é que se diz? ah sim: ser abatido. A multidão retira-se humanamente, portuguesmente, de barriga cheia de cultura portuguesa, na tradição milenar à qual nenhuma piedade chegou

Os toureiros têm pose que se fartam (e com a qual fartam toda a gente). Pose de hombre, pose de macho. Mas os riscos que de facto correm são infinitamente menores que a sorte que inevitavelmente espera os touros, que o sofrimento e a desorientação que infligem aos touros para o seu próprio prazer e o da multidão. Dá vontade de dizer que quem se porta assim, quem mostra orgulho de se portar assim, tem entre as pernas, e não apenas literalmente, órgãos bem mais pequenos que aqueles que os touros exibem. Os toureiros são corajosos mas entram na arena sabendo que haverá sempre quem os safe, senão à primeira colhida, então à segunda. Às vezes aleijam-se a sério e às vezes morrem, o que talvez prove que os deuses da Antiguidade são justos, vingativos e amigos de todos os animais por igual. Os touros, esses, não têm ninguém que os vá safar em situação de risco, estão absolutamente sós perante a morte. Querem os toureiros ser hombres até ao fim? Experimentem ser tão homens como eram os homens e os animais na Antiguidade: se ficarem no chão, fiquem no chão. Morram na arena. É cultura. A senhora ministra da Cultura certamente compensará tão antigo costume.

Também era da tradição, em Portugal por exemplo, executar em público os condenados, bater nas mulheres, escravizar pessoas. Foi assim durante milénios. Ninguém via mal nenhum nisso a não ser, confusamente, com dúvidas, as próprias vítimas. Até que a piedade, na sua interpretação moderna e laica, acabou com tão veneráveis tradições.

Que será preciso para acabar com a tradição da tourada? Que sobressalto do coração será necessário para despertar em nós a piedade pelos animais?

- Paulo Varela Gomes (Historiador), “Cartas do Interior”, Público, 27.02.2010, P2, p.3.

Se é inteligente e sensível e não quer que os seus impostos paguem a barbárie, assine a Petição contra a criação de uma secção de tauromaquia no Conselho Nacional de Cultura. Mais de 5000 assinaturas em pouco mais de duas semanas:

www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=PETPPA

4 comentários:

FitzLemon disse...

Perfeito artigo! Nao podia estar mais elucidativo sobre o que essa ministra quer fazer, ou ja fez. As touradas, sao espectaculos que so os mais primitivos humanos gostam de ver. Por detras destes espectaculos, esta o poder do dinheiro e nao da tao chamada "tradiçao"

cristina disse...

Uma indústria agonizante - por já não ter base social que a sustenha - que se fundamenta numa tradição cada vez mais contestada, obtém todos os favores do Estado (subsídios através do Ministério da Agricultura, patrocínios chorudos das autarquias, a promoção sistemática da televisão pública e agora este abraço do Ministério da Incultura), enquanto outras indústrias em dificuldades são deixadas cair pelo mesmo Estado, a pretexto da crise, dá que pensar.
Gostaria que todas as empresas portuguesas em dificuldades exigissem do mesmo Estado apoios semelhantes. Gostava mesmo muito que participássemos massivamente numa grande manifestação de repúdio pelo compadrio que norteia estas escolhas discricionárias.
No dia 10 de Abril podemos mostrar aos pequenos/grandes poderes que basta de despudor.

Paulo Borges disse...

É isso! Temos de nos mobilizar para tornar visível o nosso repúdio por esta situação, em que seres sencientes são torturados para satisfazer os baixos instintos e os interesses de pequenos grupos.

vera. disse...

No dia 10 de Abril há uma manifestação? Contra esta decisão especificamente ou contra o total desrespeito pelos animais que Portugal autoriza e ainda favorece?

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Morrer como um touro

O Ministério da Cultura resolveu criar uma secção de tauromaquia no Conselho Nacional de Cultura a pretexto de que lidar touros seria uma tradição cultural portuguesa a preservar. Mas a tradição é mais antiga, do tempo em que humanos e animais lutavam na arena para excitar os nervos da multidão com o sangue e a morte anunciada. A piedade, que é um valor mais antigo do que Cristo, veio, na sua interpretação cristã, salvar disto os humanos. Esqueceu-se, porém, dos animais.

Há um momento nas touradas em que o touro, muito ferido já pelas bandarilhas, o sangue a escorrer, cansado pelos cavalos e as capas, titubeia e parece ir desistir. Afasta-se para as tábuas. Cheira o céu. Vêm os homens e incitam-no. A multidão agita-se e delira com o sangue. O touro sabe que vai morrer. Só os imbecis podem pensar que os animais não sabem. Os empregados dos matadouros, profissionais da sensibilidade embaciada, conhecem o momento em que os animais “cheiram” a morte iminente. Por desespero, coragem ou raiva (não é o mesmo?), o touro arremete pela última vez. Em Espanha morre. Aqui, neste país de maricas, é levado lá para fora para, como é que se diz? ah sim: ser abatido. A multidão retira-se humanamente, portuguesmente, de barriga cheia de cultura portuguesa, na tradição milenar à qual nenhuma piedade chegou

Os toureiros têm pose que se fartam (e com a qual fartam toda a gente). Pose de hombre, pose de macho. Mas os riscos que de facto correm são infinitamente menores que a sorte que inevitavelmente espera os touros, que o sofrimento e a desorientação que infligem aos touros para o seu próprio prazer e o da multidão. Dá vontade de dizer que quem se porta assim, quem mostra orgulho de se portar assim, tem entre as pernas, e não apenas literalmente, órgãos bem mais pequenos que aqueles que os touros exibem. Os toureiros são corajosos mas entram na arena sabendo que haverá sempre quem os safe, senão à primeira colhida, então à segunda. Às vezes aleijam-se a sério e às vezes morrem, o que talvez prove que os deuses da Antiguidade são justos, vingativos e amigos de todos os animais por igual. Os touros, esses, não têm ninguém que os vá safar em situação de risco, estão absolutamente sós perante a morte. Querem os toureiros ser hombres até ao fim? Experimentem ser tão homens como eram os homens e os animais na Antiguidade: se ficarem no chão, fiquem no chão. Morram na arena. É cultura. A senhora ministra da Cultura certamente compensará tão antigo costume.

Também era da tradição, em Portugal por exemplo, executar em público os condenados, bater nas mulheres, escravizar pessoas. Foi assim durante milénios. Ninguém via mal nenhum nisso a não ser, confusamente, com dúvidas, as próprias vítimas. Até que a piedade, na sua interpretação moderna e laica, acabou com tão veneráveis tradições.

Que será preciso para acabar com a tradição da tourada? Que sobressalto do coração será necessário para despertar em nós a piedade pelos animais?

- Paulo Varela Gomes (Historiador), “Cartas do Interior”, Público, 27.02.2010, P2, p.3.

Se é inteligente e sensível e não quer que os seus impostos paguem a barbárie, assine a Petição contra a criação de uma secção de tauromaquia no Conselho Nacional de Cultura. Mais de 5000 assinaturas em pouco mais de duas semanas:

www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=PETPPA

4 comentários:

FitzLemon disse...

Perfeito artigo! Nao podia estar mais elucidativo sobre o que essa ministra quer fazer, ou ja fez. As touradas, sao espectaculos que so os mais primitivos humanos gostam de ver. Por detras destes espectaculos, esta o poder do dinheiro e nao da tao chamada "tradiçao"

cristina disse...

Uma indústria agonizante - por já não ter base social que a sustenha - que se fundamenta numa tradição cada vez mais contestada, obtém todos os favores do Estado (subsídios através do Ministério da Agricultura, patrocínios chorudos das autarquias, a promoção sistemática da televisão pública e agora este abraço do Ministério da Incultura), enquanto outras indústrias em dificuldades são deixadas cair pelo mesmo Estado, a pretexto da crise, dá que pensar.
Gostaria que todas as empresas portuguesas em dificuldades exigissem do mesmo Estado apoios semelhantes. Gostava mesmo muito que participássemos massivamente numa grande manifestação de repúdio pelo compadrio que norteia estas escolhas discricionárias.
No dia 10 de Abril podemos mostrar aos pequenos/grandes poderes que basta de despudor.

Paulo Borges disse...

É isso! Temos de nos mobilizar para tornar visível o nosso repúdio por esta situação, em que seres sencientes são torturados para satisfazer os baixos instintos e os interesses de pequenos grupos.

vera. disse...

No dia 10 de Abril há uma manifestação? Contra esta decisão especificamente ou contra o total desrespeito pelos animais que Portugal autoriza e ainda favorece?

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