Um espaço para reinventar Portugal como nação de todo o Mundo, que estabeleça pontes, mediações e diálogos entre todos os povos, culturas e civilizações e promova os valores mais universalistas, conforme o símbolo da Esfera Armilar. Há que visar o melhor possível para todos, uma cultura da paz, da compreensão e da fraternidade à escala planetária, orientada não só para o bem da espécie humana, mas também para a preservação da natureza e o bem-estar de todas as formas de vida sencientes.

"Nós, Portugal, o poder ser"

- Fernando Pessoa, Mensagem.
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6ª feira, 26, 18.30, no Botequim da Graça: Agostinho da Silva e a Europa




6ª feira, dia 26, estarei a partir das 18.30 com o Dirk Hennrich no Botequim da Graça, para animar a tertúlia com o tema "Agostinho da Silva e a Europa". Agostinho via o abraço ao mundo como a vocação e o destino de Portugal e da lusofonia, que não deveria ficar refém da velha civilização europeia, devendo antes trazer até ela o melhor de todas as culturas planetárias, de modo a regenerá-la da sua decadência. O mesmo já pensava Fernando Pessoa. Na verdade, o paradigma ferozmente antropocêntrico e produtivista-consumista da nossa civilização está a arruinar o planeta ao qual se estendeu.

Apareçam para arejar ideias, que este país estagnado bem precisa!

"[…] em política não há adversários: há colaboradores com outra opinião"

- Agostinho da Silva, “Bárbaros à Porta”, As Aproximações [1960], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 65.

"...uma boa definição de homem"

"[…] uma boa definição de homem, para além de suas limitações físicas, seria a de que é um ser de embrionária liberdade, cujo dever, cujo destino e cuja justificação é o da liberdade plena; plena para ele, plena para os outros, plena para os animais, plena para ervas, plena talvez até para seixo e montanha"

- Agostinho da Silva, “Nota a Cinco Fascículos” [1970], in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp. 262-263.

A religião, o homem e o animal

"O terem sido criados à imagem e semelhança de Deus os faz comparar-se não com Ele, mas com o ser vivo que se lhes segue na escala. Não encetam por essa reflexão o caminho que lhes permitiria superar-se: dele se afastam, porque vão apenas afirmar uma superioridade própria sobre o bicho, e, indo além do que lhes ordena a necessidade histórica, se julgam no pleno direito de o escravizar e utilizar a seu belo prazer"

- Agostinho da Silva, “Semelhança de Deus”, As Aproximações [1960], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 26.

Agostinho da Silva: da educação como "técnicas de fabricar adultos pelo assassínio das crianças"

"[referindo-se à revolução industrial inglesa] De então para diante em nada mais se mudou, na grande massa de educação, senão nas técnicas de fabricar adultos pelo assassínio das crianças; a humanidade de jeito ocidental pratica em grande escala o infanticídio de espírito, apenas o punindo quando é físico porque isso lhe rouba definitivamente a matéria prima do adulto. Aquelas crianças que várias vezes Fernando Pessoa apontou como a melhor coisa que há no mundo, aquele Menino eternamente criança e humano que era para Alberto Caeiro o Deus verdadeiro e supremo que faltava no universo, a essas diariamente as sacrificam as nossas escolas, diariamente as crucificam, diariamente as imolam nas aras da Eficiência”
– Agostinho da Silva, Um Fernando Pessoa [1959], in Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira I, p.115.

O verdadeiro professor, segundo Agostinho da Silva

Ora o mestre não se fez para rir; é de facto um mestre aquele de que os outros se riem, aquele de que troçam todos os prudentes e todos os bem estabelecidos; pertence-lhe ser extravagante, defender os ideais absurdos, acreditar num futuro de generosidade e de justiça, despojar-se ele próprio de comodidades e de bens, viver incerta vida, ser junto dos irmãos homens e da irmã Natureza inteligência e piedade; a ninguém terá rancor, saberá compreender todas as cóleras e todos os desprezos, pagará o mal com o bem, num esforço obstinado para que o ódio desapareça do mundo; não verá no aluno um inimigo natural, mas o mais belo dom que lhe poderiam conceder; perante ele e os outros nenhum desejo de domínio; o mestre é o homem que não manda; aconselha e canaliza, apazigua e abranda; não é a palavra que incendeia, é a palavra que faz renascer o canto alegre do pastor depois da tempestade; não o interessa vencer, nem ficar em boa posição; tornar alguém melhor – eis todo o seu programa; para si mesmo, a dádiva contínua, a humildade e o amor do próximo.

Para que me fique inteira esta figura do professor hei-de juntar-lhe uma curiosidade universal, uma helénica elasticidade e juventude espiritual: não o quero especialista, porque a sua missão não está em transmitir uma ciência; […] Há-de pois ter o espírito aberto a todas as correntes, nau pronta a sulcar todos os mares; mais do que a ninguém compete-lhe ter uma ideia do mundo tão perfeita quanto possível; como o havemos de imaginar completamente ignorante neste ou naquele domínio ? Esta exigência lhe assegura uma vida de trabalho, horas todas ocupadas e férteis e contínuos projectos; por consequência a mocidade, o entusiasmo e a alegria que requer a missão pedagógica

- Agostinho da Silva, “Projecto de um mestre”, Considerações [1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, pp. 104-105.

"...português, na sua plena forma brasileira"

"Claro que sou cristão; e outra coisas, por exemplo budista, o que é, para tantos, ser ateísta; ou, outro exemplo, pagão. O que, tudo junto, dá português, na sua plena forma brasileira"

- Agostinho da Silva, Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 175.

"A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo"

– Agostinho da Silva, "Cortina 1" (inédito).

"O problema dos políticos é o de mudarem o governo: o meu é o de mudar o Estado"

O problema dos políticos é o de mudarem o governo: o meu é o de mudar o Estado. Contam eles com o voto ou a revolução. Conto eu com o curso da História e a minha vocação e o meu esforço de estar para além dela

– Agostinho da Silva, "Cortina 1" (inédito).

"A primeira condição para libertar os outros é libertar-se a si próprio"



"A primeira condição para libertar os outros é libertar-se a si próprio; quem apareça manchado de superstição ou de fanatismo ou incapaz de separar e distinguir ou dominado por sentimentos e impulsos, não o tomarei eu como guia do povo; antes de tudo uma clara inteligência, eternamente crítica, senhora do mundo e destruidora das esfinges; […]
Hei-de vê-lo depois despido de egoísmos, atento somente aos motivos gerais; o seu bem será sempre o bem alheio; terá como inferior o que se deleita na alegria pessoal e não põe sobre tudo o serviço dos outros; à sua felicidade nada falta senão a felicidade de todos; esquecido de si, batalhará, enquanto lhe restar um alento, para destruir a ignorância e a miséria que impedem seus irmãos de percorrer a ampla estrada em que ele marcha.
Nenhuma vontade de domínio; mandar é do mundo de aparências, tornar melhor de um sólido universo de verdades; […]
Será grato aos contrários, mesmo aos que vêm armados da calúnia e da injúria; compassivo da inferioridade que demonstram fará tudo que puder para que melhorem e se elevem; responderá à mentira com a verdade e ao ódio com o bem; tenazmente se recusará a entrar nos caminhos tortuosos; se o conseguirem abater, tocará com humildade a terra a que o lançaram, descobrirá sempre que do seu lado esteve o erro e de novo terá forças para a luta; e se o aplaudirem pense logo que houve um erro também"
- Agostinho da Silva, “Quanto aos noviços”, Considerações [1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, pp. 119-120.

Em homenagem a Agostinho da Silva, nascido há 104 anos



"Não me preocupa no que penso nem a originalidade nem a coerência. Quanto à primeira, tudo aquilo com que concordo passa a ser meu — ou já meu era e ainda se me não tinha revelado. A minha originalidade está só, porventura, na digestão que faço. Pelo que respeita à coerência, bem me rala; o que penso ou escrevo hoje é do eu de hoje; o de amanhã é livre de, a partir de hoje, ter sua trajectória própria e sua meta particular. Mas, se quiserem pôr-me assinatura que notário reconheça, dirão que tenho a coerência do incoerente e a originalidade de não me importar nada com isso"

- Agostinho da Silva, Pensamento em Farmácia de Província, 1 [1977], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p.319.

Agostinho da Silva. Um Pensamento Vivo



Notável filme do João Rodrigo, neto de Agostinho da Silva, que correu Portugal e o mundo em 2006, nas Comemorações do Centenário do seu Nascimento.

À venda na Associação Agostinho da Silva: Rua do Jasmim, 11, 2º andar.

Dono do mundo?



(foto de Botelho)

"[...] cada vez mais o homem se tem posto e considerado [...] no mundo como o dono do mundo, com o direito de destruir os animais e as plantas, de escravizar os irmãos homens, de transformar a vida inteira nalguma coisa que não tem outro fim senão o de sustentar a sua vida material"

- Agostinho da Silva

Toledo

Política externa tem de principiar por definir nossa posição na Península, reportando-nos ao que foi quando judeus, cristãos e muçulmanos conviviam do Mediterrâneo ao Atlântico; quando em Toledo se celebram num mesmo recinto os três cultos de Cristo, Moisés e Maomé; quando se teve com o Califado um dos poucos períodos da história que pode ombrear com o de Péricles ou o dos T'ang; quando ensinámos à Europa os algarismos, a álgebra, a filosofia grega e a geografia árabe; e quando dela nos conseguimos defender derrotando Carlos Magno, mas deixando infelizmente nas Astúrias todas as sementes visigóticas que deram depois a chamada Reconquista Cristã, que foi Conquista e não foi Cristã, e, juntamente com a réplica almorávica, trouxe para a Ibéria a intolerância e a ferocidade de opiniões que tanto a perturbou.

Agostinho da Silva, Educação em Portugal, Lisboa, Ulmeiro, 1989, p.27

Uma contribuição para o grupo Comunicação

Uma contribuição. Uma reflexão.


Deus não exige de nós nenhum culto; prestamos a nossa homenagem a Deus, entramos em contacto pleno com o Universo, quando desenvolvemos a nossa inteligência e o nosso Amor: um laboratório, uma biblioteca são templos de Deus; uma escola é um templo de Deus, e o mais belo de todos. Todos podemos ser sacerdotes, porque todos temos capacidades de Inteligência e de Amor; e praticamos o mais elevado dos cultos a Deus quando propagamos a cultura, o que significa o derrubamento de todas as barreiras que se opõem ao Espírito.

Agostinho da Silva

Victor Mendanha à conversa com o professor Agostinho da Silva

Victor Mendanha - Desde séculos atrás, existe a ideia de um Quinto Império. Agora, após a contracção do chamado Império Colonial, alguns esperam o início desse Quinto Império, a partir de Portugal. Qual é a sua definição de Quinto Império?


Agostinho da Silva - Não para mim, pois não inventei o nome, mas para o Padre António Vieira e para Fernando Pessoa, o Quinto Império foi coisa perfeitamente definida e cada um a definiu da sua maneira.
Para Vieira, era o Império que viria após os quatro impérios que tinham falido. Mas tentar um Quinto Império, após a falência dos quatro anteriores, só não seria uma ideia de louco - e o Padre António Vieira não era louco - se evitassem a entrada, nesse Quinto Império, dos elementos culpados da ruína dos impérios antecedentes.
Então, não podemos pensar mais nenhum império em que haja qualquer das «bactérias» políticas causadoras do desaparecimento dos antecedentes.

Victor Mendanha- Quais são, pois, essas «bactérias» tão perigosas, capazes de minarem até um império?

Agostinho da Silva - São, hoje, perfeitamente definidas, sendo a maior a mania do homem em mandar nos outros homens. Esta é a «bactéria» mais perigosa.
Depois surge todo o aparelho económico sobre o trabalho obrigatório, o que faz de cada império uma prisão. Não se podem consentir mais cadeias no Mundo, seja para nós seja para bichos, nos jardins zoológicos, como fizemos até hoje.
Em terceiro lugar, a questão da educação. Como havia trabalho obrigatório e profissões, a nossa educação nunca passou de uma preparação para um determinado serviço. Não aprendemos aquilo que queremos aprender mas a matéria dos cursos dirigidos para isto ou para aquilo.
Em quarto lugar , o facto do trabalho obrigatório impor classes sociais, procurando o domínio de umas sobre as outras: cada pessoa da classe de cima procura ser diferente da pessoa da classe de baixo.
Em último lugar, temos as crises ideológicas e metafísicas, as quais contribuíram , igualmente, para a ruína dos quatro impérios que o Padre António Vieira tinha posto antes do seu.

Victor Mendanha - Os portugueses poderão fundar um Quinto Império?

Agostinho da Silva - Os portugueses poderão ir para um Quinto Império se decidirem, em primeiro lugar, não serem imperadores. Este é o ponto essencial da questão.
Paradoxalmente, apenas haverá um Quinto Império se não existir um quinto imperador...

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Nos últimos cem anos, por aí, as técnicas de Comunicação têm sido utilizadas como uma "bactéria perigosa", a "do homem mandar nos outros homens". Chegou a tal ponto que já se divulgam na Internet técnicas de manipulação pura (basta fazer parte de uma qualquer associação de marketing para ter acesso às mesmas), que utilizam os instintos mais básicos do ser humano (medo, desejo de alimento ou consumo e impulso sexual) para lhe alterar o comportamento e isto com uma única finalidade: o lucro e o aumento de poder de alguns.

É fácil, nesta área, cairmos na tentação de utilizar exactamente as mesmas técnicas "para o bem comum". Fácil e profundamente errado. O grupo Comunicação ligado a este movimento tem de se tornar a antítese desta forma de Comunicação.

Este grupo, e é esta a minha visão que partilho convosco, deverá centrar-se essencialmente num objectivo: levar ao conhecimento do maior número possível de pessoas as ideias e propostas dos restantes grupos. E transmitir essa informação de forma pura, utilizando a nossa língua e os seus pensadores e artistas para o efeito. Ao comunicar desta forma, temos que estar preparados para que as ideias e propostas deste movimento sejam desagradáveis e mesmo repugnantes e odiosas para alguns. Uso estes adjectivos propositadamente, pois os "homens bons", como lhes chama Agostinho da Silva, têm muita dificuldade em compreender os que já o não são. E não estou a falar apenas dos que lucram com o actual estado da sociedade, mas com os que desse estado são vítimas e gostam de o ser.

Em primeiro lugar - sendo essa a minha área de especialidade - irei concentrar-me na Internet, procurando que o blog e o fórum fiquem muito bem posicionados nos motores de busca, para que possam ser facilmente encontrados por quem os procura ou procura colaborar num projecto semelhante. Para optimizar esse posicionamento, facilitaria que todos os membros que tenham blogs, publicassem o Manifesto no blog e incluíssem na lista de blogs este blog e o fórum.

Também ajuda se colocarem o blog e fórum na vossa assinatura de e-mail pessoal, mas claro que é tudo opcional e cada um colaborará na medida das suas possibilidades.

Sei que há outros membros do grupo, com quem já contactei, que têm jornais/revistas online e que estão a preparar-se para divulgar o projecto também nesses meios.

Proponho ainda que este grupo ajude a facilitar a comunicação inter membros por todos os meios ao seu alcance. Se se registarem todos no fórum, podem manter o vosso e-mail privado e, mesmo assim, podem comunicar com os restantes membros do grupo.

Mas o meu sonho é que um dia tenhamos voluntários suficientes para comunicar com as pessoas cara a cara, no meio da rua, à porta das escolas e universidades, nos cafés... e fazê-lo com arte, com poesia, com música, com dança, com livros... enfim, com alegria e paixão.

Saudações e um bem-haja para todos.

No Reino

[...] no Reino [de Deus na Terra] não haverá problemas económicos, todos hão-de ser como as flores que não fiam nem tecem e andam com os vestuários mais belos do que os de Salomão ou como as aves ligeiras que sempre encontram alimento e lugar para um ninho; no Reino, que se abrirá a todos, sem distinção de nações, de raças, de classes ou de castas, não haverá violências, mesmo as de defesa, nem juramentos, nem posse de bens materiais, nem o homem terá de ser previdente, no contínuo temor da velhice, da doença, da morte; no Reino ninguém terá que trabalhar, o que significa certamente que ninguém terá de se sujeitar  a tarefas que vão contra as suas tendências íntimas, ou abatem a saúde ou são puras formas de escravatura; no Reino se poderá ter o desprezo pelo dinheiro, dado que exista; no Reino não haverá a menor ideia de organização familiar, que Jesus lia, decididamente, a um certo estádio de evolução económica e moral; no Reino não haverá Estado, com príncipes que oprimam os cidadãos; antes cada um será, voluntariamente, por amor e interesse do espírito, o servidor dos outros; no Reino não haverá processos, nem tribunais, nem juízes; no Reino não haverá senão bondade, amor, fervor espiritual, contemplação de ideias, profunda, segura, inabalável felicidade.

Agostinho da Silva, in «Cristianismo»

Agostinho da Silva: O Professor como Mestre

Não me basta o professor honesto e cumpridor dos seus deveres; a sua norma é burocrática e vejo-o como pouco mais fazendo do que exercer a sua profissão; estou pronto a conceder-lhe todas as qualidades, uma relativa inteligência e aquele saber que lhe assegura superioridade ante a classe; acho-o digno dos louvores oficiais e das atenções das pessoas mais sérias; creio mesmo que tal distinção foi expressamente criada para ele e seus pares. De resto, é sempre possível a comparação com tipos inferiores de humanidade; e ante eles o professor exemplar aparece cheio de mérito. Simplesmente, notaremos que o ser mestre não é de modo algum um emprego e que a sua actividade se não pode aferir pelos métodos correntes; ganhar a vida é no professor um acréscimo e não o alvo; e o que importa, no seu juízo final, não é a ideia que fazem dele os homens do tempo; o que verdadeiramente há-de pesar na balança é a pedra que lançou para os alicerces do futuro.
A sua contribuição terá sido mínima se o não moveu a tomar o caminho de mestre um imenso amor da humanidade e a clara inteligência dos destinos a que o espírito o chama; errou o que se fez professor e desconfia dos homens, se defende deles, evita ir ao seu encontro de coração aberto, paga falta com falta e se mantém na moral da luta; esse jamais tornará melhores os seus alunos; poderão ser excelentes as palavras que profere; mas o moço que o escuta vai rindo por dentro porque só o exemplo o abala. Outros há que fazem da marcha do homem sobre a Terra uma estranha concepção; vêem-no girando perpetuamente nos batidos caminhos; e, julgando o mundo por si, não descobrem em volta mais que uma eterna condenação à maldade, à cegueira e à miséria; bem no fundo da alma nenhuma luz que os alumie e solicite; porque não acreditam em progresso nenhuma vontade de melhorar; são os que troçam daquilo a que chamam «a pedagogia moderna»; são os que se riem de certos loucos que pensam o contrário.
Ora o mestre não se fez para rir; é de facto um mestre aquele de que os outros se riem, aquele de que troçam todos os prudentes e todos os bem estabelecidos; pertence-lhe ser extravagante, defender os ideais absurdos, acreditar num futuro de generosidade e de justiça, despojar-se ele próprio de comodidades e de bens, viver incerta vida, ser junto dos irmãos homens e da irmã Natureza inteligência e piedade; a ninguém terá rancor, saberá compreender todas as cóleras e todos os desprezos, pagará o mal com o bem, num esforço obstinado para que o ódio desapareça do mundo; não verá no aluno um inimigo natural, mas o mais belo dom que lhe poderiam conceder; perante ele e os outros nenhum desejo de domínio; o mestre é o homem que não manda; aconselha e canaliza, apazigua e abranda; não é a palavra que incendeia, é a palavra que faz renascer o canto alegre do pastor depois da tempestade; não o interessa vencer, nem ficar em boa posição; tornar alguém melhor — eis todo o seu programa; para si mesmo, a dádiva contínua, a humildade e o amor do próximo.


Agostinho da Silva, in Considerações

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6ª feira, 26, 18.30, no Botequim da Graça: Agostinho da Silva e a Europa




6ª feira, dia 26, estarei a partir das 18.30 com o Dirk Hennrich no Botequim da Graça, para animar a tertúlia com o tema "Agostinho da Silva e a Europa". Agostinho via o abraço ao mundo como a vocação e o destino de Portugal e da lusofonia, que não deveria ficar refém da velha civilização europeia, devendo antes trazer até ela o melhor de todas as culturas planetárias, de modo a regenerá-la da sua decadência. O mesmo já pensava Fernando Pessoa. Na verdade, o paradigma ferozmente antropocêntrico e produtivista-consumista da nossa civilização está a arruinar o planeta ao qual se estendeu.

Apareçam para arejar ideias, que este país estagnado bem precisa!

"[…] em política não há adversários: há colaboradores com outra opinião"

- Agostinho da Silva, “Bárbaros à Porta”, As Aproximações [1960], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 65.

"...uma boa definição de homem"

"[…] uma boa definição de homem, para além de suas limitações físicas, seria a de que é um ser de embrionária liberdade, cujo dever, cujo destino e cuja justificação é o da liberdade plena; plena para ele, plena para os outros, plena para os animais, plena para ervas, plena talvez até para seixo e montanha"

- Agostinho da Silva, “Nota a Cinco Fascículos” [1970], in Textos e Ensaios Filosóficos II, pp. 262-263.

A religião, o homem e o animal

"O terem sido criados à imagem e semelhança de Deus os faz comparar-se não com Ele, mas com o ser vivo que se lhes segue na escala. Não encetam por essa reflexão o caminho que lhes permitiria superar-se: dele se afastam, porque vão apenas afirmar uma superioridade própria sobre o bicho, e, indo além do que lhes ordena a necessidade histórica, se julgam no pleno direito de o escravizar e utilizar a seu belo prazer"

- Agostinho da Silva, “Semelhança de Deus”, As Aproximações [1960], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 26.

Agostinho da Silva: da educação como "técnicas de fabricar adultos pelo assassínio das crianças"

"[referindo-se à revolução industrial inglesa] De então para diante em nada mais se mudou, na grande massa de educação, senão nas técnicas de fabricar adultos pelo assassínio das crianças; a humanidade de jeito ocidental pratica em grande escala o infanticídio de espírito, apenas o punindo quando é físico porque isso lhe rouba definitivamente a matéria prima do adulto. Aquelas crianças que várias vezes Fernando Pessoa apontou como a melhor coisa que há no mundo, aquele Menino eternamente criança e humano que era para Alberto Caeiro o Deus verdadeiro e supremo que faltava no universo, a essas diariamente as sacrificam as nossas escolas, diariamente as crucificam, diariamente as imolam nas aras da Eficiência”
– Agostinho da Silva, Um Fernando Pessoa [1959], in Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira I, p.115.

O verdadeiro professor, segundo Agostinho da Silva

Ora o mestre não se fez para rir; é de facto um mestre aquele de que os outros se riem, aquele de que troçam todos os prudentes e todos os bem estabelecidos; pertence-lhe ser extravagante, defender os ideais absurdos, acreditar num futuro de generosidade e de justiça, despojar-se ele próprio de comodidades e de bens, viver incerta vida, ser junto dos irmãos homens e da irmã Natureza inteligência e piedade; a ninguém terá rancor, saberá compreender todas as cóleras e todos os desprezos, pagará o mal com o bem, num esforço obstinado para que o ódio desapareça do mundo; não verá no aluno um inimigo natural, mas o mais belo dom que lhe poderiam conceder; perante ele e os outros nenhum desejo de domínio; o mestre é o homem que não manda; aconselha e canaliza, apazigua e abranda; não é a palavra que incendeia, é a palavra que faz renascer o canto alegre do pastor depois da tempestade; não o interessa vencer, nem ficar em boa posição; tornar alguém melhor – eis todo o seu programa; para si mesmo, a dádiva contínua, a humildade e o amor do próximo.

Para que me fique inteira esta figura do professor hei-de juntar-lhe uma curiosidade universal, uma helénica elasticidade e juventude espiritual: não o quero especialista, porque a sua missão não está em transmitir uma ciência; […] Há-de pois ter o espírito aberto a todas as correntes, nau pronta a sulcar todos os mares; mais do que a ninguém compete-lhe ter uma ideia do mundo tão perfeita quanto possível; como o havemos de imaginar completamente ignorante neste ou naquele domínio ? Esta exigência lhe assegura uma vida de trabalho, horas todas ocupadas e férteis e contínuos projectos; por consequência a mocidade, o entusiasmo e a alegria que requer a missão pedagógica

- Agostinho da Silva, “Projecto de um mestre”, Considerações [1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, pp. 104-105.

"...português, na sua plena forma brasileira"

"Claro que sou cristão; e outra coisas, por exemplo budista, o que é, para tantos, ser ateísta; ou, outro exemplo, pagão. O que, tudo junto, dá português, na sua plena forma brasileira"

- Agostinho da Silva, Pensamento à Solta, in Textos e Ensaios Filosóficos II, p. 175.

"A direita me considera como da esquerda; esta como sendo eu inclinado à direita; o centro me tem por inexistente. Devo estar certo"

– Agostinho da Silva, "Cortina 1" (inédito).

"O problema dos políticos é o de mudarem o governo: o meu é o de mudar o Estado"

O problema dos políticos é o de mudarem o governo: o meu é o de mudar o Estado. Contam eles com o voto ou a revolução. Conto eu com o curso da História e a minha vocação e o meu esforço de estar para além dela

– Agostinho da Silva, "Cortina 1" (inédito).

"A primeira condição para libertar os outros é libertar-se a si próprio"



"A primeira condição para libertar os outros é libertar-se a si próprio; quem apareça manchado de superstição ou de fanatismo ou incapaz de separar e distinguir ou dominado por sentimentos e impulsos, não o tomarei eu como guia do povo; antes de tudo uma clara inteligência, eternamente crítica, senhora do mundo e destruidora das esfinges; […]
Hei-de vê-lo depois despido de egoísmos, atento somente aos motivos gerais; o seu bem será sempre o bem alheio; terá como inferior o que se deleita na alegria pessoal e não põe sobre tudo o serviço dos outros; à sua felicidade nada falta senão a felicidade de todos; esquecido de si, batalhará, enquanto lhe restar um alento, para destruir a ignorância e a miséria que impedem seus irmãos de percorrer a ampla estrada em que ele marcha.
Nenhuma vontade de domínio; mandar é do mundo de aparências, tornar melhor de um sólido universo de verdades; […]
Será grato aos contrários, mesmo aos que vêm armados da calúnia e da injúria; compassivo da inferioridade que demonstram fará tudo que puder para que melhorem e se elevem; responderá à mentira com a verdade e ao ódio com o bem; tenazmente se recusará a entrar nos caminhos tortuosos; se o conseguirem abater, tocará com humildade a terra a que o lançaram, descobrirá sempre que do seu lado esteve o erro e de novo terá forças para a luta; e se o aplaudirem pense logo que houve um erro também"
- Agostinho da Silva, “Quanto aos noviços”, Considerações [1944], in Textos e Ensaios Filosóficos I, pp. 119-120.

Em homenagem a Agostinho da Silva, nascido há 104 anos



"Não me preocupa no que penso nem a originalidade nem a coerência. Quanto à primeira, tudo aquilo com que concordo passa a ser meu — ou já meu era e ainda se me não tinha revelado. A minha originalidade está só, porventura, na digestão que faço. Pelo que respeita à coerência, bem me rala; o que penso ou escrevo hoje é do eu de hoje; o de amanhã é livre de, a partir de hoje, ter sua trajectória própria e sua meta particular. Mas, se quiserem pôr-me assinatura que notário reconheça, dirão que tenho a coerência do incoerente e a originalidade de não me importar nada com isso"

- Agostinho da Silva, Pensamento em Farmácia de Província, 1 [1977], in Textos e Ensaios Filosóficos II, p.319.

Agostinho da Silva. Um Pensamento Vivo



Notável filme do João Rodrigo, neto de Agostinho da Silva, que correu Portugal e o mundo em 2006, nas Comemorações do Centenário do seu Nascimento.

À venda na Associação Agostinho da Silva: Rua do Jasmim, 11, 2º andar.

Dono do mundo?



(foto de Botelho)

"[...] cada vez mais o homem se tem posto e considerado [...] no mundo como o dono do mundo, com o direito de destruir os animais e as plantas, de escravizar os irmãos homens, de transformar a vida inteira nalguma coisa que não tem outro fim senão o de sustentar a sua vida material"

- Agostinho da Silva

Toledo

Política externa tem de principiar por definir nossa posição na Península, reportando-nos ao que foi quando judeus, cristãos e muçulmanos conviviam do Mediterrâneo ao Atlântico; quando em Toledo se celebram num mesmo recinto os três cultos de Cristo, Moisés e Maomé; quando se teve com o Califado um dos poucos períodos da história que pode ombrear com o de Péricles ou o dos T'ang; quando ensinámos à Europa os algarismos, a álgebra, a filosofia grega e a geografia árabe; e quando dela nos conseguimos defender derrotando Carlos Magno, mas deixando infelizmente nas Astúrias todas as sementes visigóticas que deram depois a chamada Reconquista Cristã, que foi Conquista e não foi Cristã, e, juntamente com a réplica almorávica, trouxe para a Ibéria a intolerância e a ferocidade de opiniões que tanto a perturbou.

Agostinho da Silva, Educação em Portugal, Lisboa, Ulmeiro, 1989, p.27

Uma contribuição para o grupo Comunicação

Uma contribuição. Uma reflexão.

Deus não exige de nós nenhum culto; prestamos a nossa homenagem a Deus, entramos em contacto pleno com o Universo, quando desenvolvemos a nossa inteligência e o nosso Amor: um laboratório, uma biblioteca são templos de Deus; uma escola é um templo de Deus, e o mais belo de todos. Todos podemos ser sacerdotes, porque todos temos capacidades de Inteligência e de Amor; e praticamos o mais elevado dos cultos a Deus quando propagamos a cultura, o que significa o derrubamento de todas as barreiras que se opõem ao Espírito.

Agostinho da Silva

Victor Mendanha à conversa com o professor Agostinho da Silva

Victor Mendanha - Desde séculos atrás, existe a ideia de um Quinto Império. Agora, após a contracção do chamado Império Colonial, alguns esperam o início desse Quinto Império, a partir de Portugal. Qual é a sua definição de Quinto Império?

Agostinho da Silva - Não para mim, pois não inventei o nome, mas para o Padre António Vieira e para Fernando Pessoa, o Quinto Império foi coisa perfeitamente definida e cada um a definiu da sua maneira.
Para Vieira, era o Império que viria após os quatro impérios que tinham falido. Mas tentar um Quinto Império, após a falência dos quatro anteriores, só não seria uma ideia de louco - e o Padre António Vieira não era louco - se evitassem a entrada, nesse Quinto Império, dos elementos culpados da ruína dos impérios antecedentes.
Então, não podemos pensar mais nenhum império em que haja qualquer das «bactérias» políticas causadoras do desaparecimento dos antecedentes.

Victor Mendanha- Quais são, pois, essas «bactérias» tão perigosas, capazes de minarem até um império?

Agostinho da Silva - São, hoje, perfeitamente definidas, sendo a maior a mania do homem em mandar nos outros homens. Esta é a «bactéria» mais perigosa.
Depois surge todo o aparelho económico sobre o trabalho obrigatório, o que faz de cada império uma prisão. Não se podem consentir mais cadeias no Mundo, seja para nós seja para bichos, nos jardins zoológicos, como fizemos até hoje.
Em terceiro lugar, a questão da educação. Como havia trabalho obrigatório e profissões, a nossa educação nunca passou de uma preparação para um determinado serviço. Não aprendemos aquilo que queremos aprender mas a matéria dos cursos dirigidos para isto ou para aquilo.
Em quarto lugar , o facto do trabalho obrigatório impor classes sociais, procurando o domínio de umas sobre as outras: cada pessoa da classe de cima procura ser diferente da pessoa da classe de baixo.
Em último lugar, temos as crises ideológicas e metafísicas, as quais contribuíram , igualmente, para a ruína dos quatro impérios que o Padre António Vieira tinha posto antes do seu.

Victor Mendanha - Os portugueses poderão fundar um Quinto Império?

Agostinho da Silva - Os portugueses poderão ir para um Quinto Império se decidirem, em primeiro lugar, não serem imperadores. Este é o ponto essencial da questão.
Paradoxalmente, apenas haverá um Quinto Império se não existir um quinto imperador...

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Nos últimos cem anos, por aí, as técnicas de Comunicação têm sido utilizadas como uma "bactéria perigosa", a "do homem mandar nos outros homens". Chegou a tal ponto que já se divulgam na Internet técnicas de manipulação pura (basta fazer parte de uma qualquer associação de marketing para ter acesso às mesmas), que utilizam os instintos mais básicos do ser humano (medo, desejo de alimento ou consumo e impulso sexual) para lhe alterar o comportamento e isto com uma única finalidade: o lucro e o aumento de poder de alguns.

É fácil, nesta área, cairmos na tentação de utilizar exactamente as mesmas técnicas "para o bem comum". Fácil e profundamente errado. O grupo Comunicação ligado a este movimento tem de se tornar a antítese desta forma de Comunicação.

Este grupo, e é esta a minha visão que partilho convosco, deverá centrar-se essencialmente num objectivo: levar ao conhecimento do maior número possível de pessoas as ideias e propostas dos restantes grupos. E transmitir essa informação de forma pura, utilizando a nossa língua e os seus pensadores e artistas para o efeito. Ao comunicar desta forma, temos que estar preparados para que as ideias e propostas deste movimento sejam desagradáveis e mesmo repugnantes e odiosas para alguns. Uso estes adjectivos propositadamente, pois os "homens bons", como lhes chama Agostinho da Silva, têm muita dificuldade em compreender os que já o não são. E não estou a falar apenas dos que lucram com o actual estado da sociedade, mas com os que desse estado são vítimas e gostam de o ser.

Em primeiro lugar - sendo essa a minha área de especialidade - irei concentrar-me na Internet, procurando que o blog e o fórum fiquem muito bem posicionados nos motores de busca, para que possam ser facilmente encontrados por quem os procura ou procura colaborar num projecto semelhante. Para optimizar esse posicionamento, facilitaria que todos os membros que tenham blogs, publicassem o Manifesto no blog e incluíssem na lista de blogs este blog e o fórum.

Também ajuda se colocarem o blog e fórum na vossa assinatura de e-mail pessoal, mas claro que é tudo opcional e cada um colaborará na medida das suas possibilidades.

Sei que há outros membros do grupo, com quem já contactei, que têm jornais/revistas online e que estão a preparar-se para divulgar o projecto também nesses meios.

Proponho ainda que este grupo ajude a facilitar a comunicação inter membros por todos os meios ao seu alcance. Se se registarem todos no fórum, podem manter o vosso e-mail privado e, mesmo assim, podem comunicar com os restantes membros do grupo.

Mas o meu sonho é que um dia tenhamos voluntários suficientes para comunicar com as pessoas cara a cara, no meio da rua, à porta das escolas e universidades, nos cafés... e fazê-lo com arte, com poesia, com música, com dança, com livros... enfim, com alegria e paixão.

Saudações e um bem-haja para todos.

No Reino

[...] no Reino [de Deus na Terra] não haverá problemas económicos, todos hão-de ser como as flores que não fiam nem tecem e andam com os vestuários mais belos do que os de Salomão ou como as aves ligeiras que sempre encontram alimento e lugar para um ninho; no Reino, que se abrirá a todos, sem distinção de nações, de raças, de classes ou de castas, não haverá violências, mesmo as de defesa, nem juramentos, nem posse de bens materiais, nem o homem terá de ser previdente, no contínuo temor da velhice, da doença, da morte; no Reino ninguém terá que trabalhar, o que significa certamente que ninguém terá de se sujeitar  a tarefas que vão contra as suas tendências íntimas, ou abatem a saúde ou são puras formas de escravatura; no Reino se poderá ter o desprezo pelo dinheiro, dado que exista; no Reino não haverá a menor ideia de organização familiar, que Jesus lia, decididamente, a um certo estádio de evolução económica e moral; no Reino não haverá Estado, com príncipes que oprimam os cidadãos; antes cada um será, voluntariamente, por amor e interesse do espírito, o servidor dos outros; no Reino não haverá processos, nem tribunais, nem juízes; no Reino não haverá senão bondade, amor, fervor espiritual, contemplação de ideias, profunda, segura, inabalável felicidade.

Agostinho da Silva, in «Cristianismo»

Agostinho da Silva: O Professor como Mestre

Não me basta o professor honesto e cumpridor dos seus deveres; a sua norma é burocrática e vejo-o como pouco mais fazendo do que exercer a sua profissão; estou pronto a conceder-lhe todas as qualidades, uma relativa inteligência e aquele saber que lhe assegura superioridade ante a classe; acho-o digno dos louvores oficiais e das atenções das pessoas mais sérias; creio mesmo que tal distinção foi expressamente criada para ele e seus pares. De resto, é sempre possível a comparação com tipos inferiores de humanidade; e ante eles o professor exemplar aparece cheio de mérito. Simplesmente, notaremos que o ser mestre não é de modo algum um emprego e que a sua actividade se não pode aferir pelos métodos correntes; ganhar a vida é no professor um acréscimo e não o alvo; e o que importa, no seu juízo final, não é a ideia que fazem dele os homens do tempo; o que verdadeiramente há-de pesar na balança é a pedra que lançou para os alicerces do futuro.
A sua contribuição terá sido mínima se o não moveu a tomar o caminho de mestre um imenso amor da humanidade e a clara inteligência dos destinos a que o espírito o chama; errou o que se fez professor e desconfia dos homens, se defende deles, evita ir ao seu encontro de coração aberto, paga falta com falta e se mantém na moral da luta; esse jamais tornará melhores os seus alunos; poderão ser excelentes as palavras que profere; mas o moço que o escuta vai rindo por dentro porque só o exemplo o abala. Outros há que fazem da marcha do homem sobre a Terra uma estranha concepção; vêem-no girando perpetuamente nos batidos caminhos; e, julgando o mundo por si, não descobrem em volta mais que uma eterna condenação à maldade, à cegueira e à miséria; bem no fundo da alma nenhuma luz que os alumie e solicite; porque não acreditam em progresso nenhuma vontade de melhorar; são os que troçam daquilo a que chamam «a pedagogia moderna»; são os que se riem de certos loucos que pensam o contrário.
Ora o mestre não se fez para rir; é de facto um mestre aquele de que os outros se riem, aquele de que troçam todos os prudentes e todos os bem estabelecidos; pertence-lhe ser extravagante, defender os ideais absurdos, acreditar num futuro de generosidade e de justiça, despojar-se ele próprio de comodidades e de bens, viver incerta vida, ser junto dos irmãos homens e da irmã Natureza inteligência e piedade; a ninguém terá rancor, saberá compreender todas as cóleras e todos os desprezos, pagará o mal com o bem, num esforço obstinado para que o ódio desapareça do mundo; não verá no aluno um inimigo natural, mas o mais belo dom que lhe poderiam conceder; perante ele e os outros nenhum desejo de domínio; o mestre é o homem que não manda; aconselha e canaliza, apazigua e abranda; não é a palavra que incendeia, é a palavra que faz renascer o canto alegre do pastor depois da tempestade; não o interessa vencer, nem ficar em boa posição; tornar alguém melhor — eis todo o seu programa; para si mesmo, a dádiva contínua, a humildade e o amor do próximo.


Agostinho da Silva, in Considerações