A história e a cultura constituem poderosos sistemas de condicionamentos e automatismos mentais, emocionais e práxicos que convidam, por via gregária e irreflectida, a um regime de consciência parcial, incapaz de compreender e aceitar a realidade humana, cósmica e divina na sua totalidade plural e complexa. A fixação de uma dada identidade histórico-cultural é, por isso mesmo, um notável contributo para o estreitamento da consciência e para o sofrimento e conflitos daí resultantes. Por isso mesmo, a cultura mais poderosa é aquela que a si mesma se não vir como um fim em si e antes como um meio para se libertar de si mesma. É esse o projecto da "cultura portuguesa", assumida por Vieira, Pessoa e Agostinho da Silva como trampolim para a universalidade, mediação para além de todas as mediações, sejam elas lusitanas ou lusófonas. O melhor de Portugal e da lusofonia é o que neles se esquece de se rever e assinar no espelho do mundo. O pior de Portugal e da lusofonia é o que no mesmo acto deixa a mácula da assinatura. Medíocre é o que se afirma. Grande o que se esquece. Supremo o que nunca se nomeou.
Um espaço para reinventar Portugal como nação de todo o Mundo, que estabeleça pontes, mediações e diálogos entre todos os povos, culturas e civilizações e promova os valores mais universalistas, conforme o símbolo da Esfera Armilar. Há que visar o melhor possível para todos, uma cultura da paz, da compreensão e da fraternidade à escala planetária, orientada não só para o bem da espécie humana, mas também para a preservação da natureza e o bem-estar de todas as formas de vida sencientes.
"Nós, Portugal, o poder ser"
- Fernando Pessoa, Mensagem.
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Esfera Armilar - Da identidade histórico-cultural como limite a superar
domingo, 27 de dezembro de 2009
Publicada por Paulo Borges à(s) 01:23 0 comentáriosEtiquetas: Cultura, história, identidade, Lusofonia, Portugal
Contributo para o grupo de trabalho Educação e Cultura
Sendo o Património um dado cultural e educacional das nossas Cidades, que as anima e lhe dá identidade através do seu edificado, tornando-se este um dos suportes para enumeras actividades. Permitimo-nos a uma reflexão sobre a forma de como os mecanismos de legitimação são utilizados para validar "centros/zonas-históricas" ponde de lado o individuo, habitante de determinada malha territorial, tornando as cidades meros cenários para turistas.
---------------
----------------
A ideia de apropriação territorial, no sentido de ocupação física e afectiva do espaço, leva a que um grupo procure o que o caracteriza, para que se posa distinguir do vizinho, como refere José Mattoso (2003) " eu pertenço a uma categoria de indivíduos que se caracterizam especificamente pela comum condição de portugueses e que se distinguem de todos os outros homens por estes não o serem (...)"1, podemos transpor estas palavras para o universo local, a ideia de pertença surge-nos primeiramente no universo da micro-micro-escala (local) para a micro-escala (glocal) e só depois passa para a macro-escala (global), ou seja, Lisboa – Portugal – Europa.
Essa necessidade leva a um levantamento do património material e imaterial, relevante para a afirmação da identidade do Município ou freguesia. A artista plástica Isabel Brison (1980, Lisboa) numa obra intitulada "Maravilhas de Portugal"2 (Lisboa_ 2008) reforça essa ideia, ironizando-a, expondo que "quando se quer dar a conhecer uma cidade, o procedimento usual é compilar os monumentos e espaços públicos mais famosos e mais representativos do local.". Referindo-se ao universo individual de assimilação cognitiva da cidade, o modo como se difunde e legitima a noção de identidade municipal, através do património histórico-cultural, tem consequências no discurso e leitura que se faz desse mesmo espaço, alterando-se a sua escala de posicionamento relativa às narrativas de identidade e memória.
Um dos instrumentos legitimadores dessa identidade é a visibilidade simbólica, materializada nos "centros históricos", construtores de memórias colectivas, tornando o passado num presente recente, que as periferias intra-municipais, com o advento da globalização e da hiper-realidade, reivindicam também elas a validação de possuírem "periferias históricas", as chamadas "zonas históricas"
Nunca, tanto como hoje, as questões de valorização, salvaguarda e recuperação do património urbano mereceram tão ampla atenção e preocupação dos vários agentes sociais, numa época em que a globalização dita o mercado, o modo de agir e pensar, as Cidades tornaram-se em elementos estéticos de fruição individual e colectiva, "objectos de desejo" (Leach 2005) mercantilizados, fomentando a competição entre os vários territórios, através da dinamização dos "centros históricos" em "cidades criativas" (Richard Florida 2003). Já lá vai a época em que o património urbano era um elemento estático de uma cidade, meramente contemplativo, torna-se agora como potencial económico de sustentabilidade da cidade através da atracção turística.
Com o advento da individualização da sociedade perdeu-se a noção de "bairro", na verdadeira acepção do conceito, em que existia um entrosamento de culturas e extractos sociais, hoje o que existe são "novos bairros" que segregam determinados grupos culturais e sociais. Outrora competia-se entre bairros através de eventos "culturais", como as tão famosas marchas populares, etc., que hoje não passam de elemento etnográfico lisboeta para o turista, em que as festas populares, que não passavam disso mesmo, da interacção popular de carga simbólica, tornaram-se num ingrediente de atracção turística. Nos dias que correm os "novos bairros" competem pela, camuflada, qualidade de vida, que se verifica através do cuidado que tem na reabilitação dos vestígios patrimoniais urbanos, tanto a nível do edificado como do ambiental. É sempre importante mostrar resquício do antigo, nem que seja a preservação de uma chaminé de um qualquer complexo industrial transformado em condomínio.
Este tipo de prática levanta questões a nível dos interventores – arquitectos, engenheiros, urbanistas – na maneira como se apropriam das práticas das suas disciplinas na reconversão de determinadas áreas ou edifícios de carácter histórico municipal ou para uma determinada comunidade que criou a sua identidade colectiva através desse mesmo complexo, Quando o principal argumento passa por " (...) pensar na importância (documental, histórica, estética material) destes, já escassos, sobreviventes (os edifícios históricos), dotados de um valor potencial, essencial a uma economia de futuro, virada para os serviços, para uma nova residencialidade urbana e para o turismo. É preciso perceber que os americanos e os japoneses vêm à Europa para ver as nossas cidades."3, até que ponto se pode apagar a memória colectiva e afectiva da ideia patrimonial de uma localidade para que o visitante possa usufruir da embriaguez estética (Leach 2005) do território edificado e ambiental?!
Vivemos num contexto de multiculturalidade global, em que se pretende marcar a diferença afastando-se do que o diferencia verdadeiramente, por pressão do exterior construindo um cenário de consenso e automática comparação com o outro, Portugal/Europa. É certa a necessidade do outro na estrutura da edificação de uma identidade, seja individual ou comunitária mas "ela precisa de seu tempo, o tempo do pensamento"4 para criar uma imagem sólida na dialéctica entre as várias escalas e tomada de consciência do que somos e de não como os outros querem que sejamos.
Concordamos com o geógrafo Orlando Ribeiro quando critica todos aqueles que se refugiam em "espaços teóricos ou abstractos"5 faltando-lhes "por completo o sentido do espaço concreto (...)"6, defendendo o confronto desses saberes teóricos com o espaço perceptível e a multidisciplinaridade de quem o analisa ou constrói a diversidade regional, amparada em pressupostos das chamadas Ciências Sociais e Humanas, para que se entendam, de como, segundo os autores Jean Rémy e Liliane Voyé, se dão as trocas sociais e culturais, ou seja, levamos a uma " (...) compreensão do estatuto do espaço e dos modos de agrupamento das populações e das actividades"7, para que não sejam as contingências econimico-turisticas a ditar o modo de intervenção no território.
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Um dos instrumentos legitimadores dessa identidade é a visibilidade simbólica, materializada nos "centros históricos", construtores de memórias colectivas, tornando o passado num presente recente, que as periferias intra-municipais, com o advento da globalização e da hiper-realidade, reivindicam também elas a validação de possuírem "periferias históricas", as chamadas "zonas históricas"
Nunca, tanto como hoje, as questões de valorização, salvaguarda e recuperação do património urbano mereceram tão ampla atenção e preocupação dos vários agentes sociais, numa época em que a globalização dita o mercado, o modo de agir e pensar, as Cidades tornaram-se em elementos estéticos de fruição individual e colectiva, "objectos de desejo" (Leach 2005) mercantilizados, fomentando a competição entre os vários territórios, através da dinamização dos "centros históricos" em "cidades criativas" (Richard Florida 2003). Já lá vai a época em que o património urbano era um elemento estático de uma cidade, meramente contemplativo, torna-se agora como potencial económico de sustentabilidade da cidade através da atracção turística.
Com o advento da individualização da sociedade perdeu-se a noção de "bairro", na verdadeira acepção do conceito, em que existia um entrosamento de culturas e extractos sociais, hoje o que existe são "novos bairros" que segregam determinados grupos culturais e sociais. Outrora competia-se entre bairros através de eventos "culturais", como as tão famosas marchas populares, etc., que hoje não passam de elemento etnográfico lisboeta para o turista, em que as festas populares, que não passavam disso mesmo, da interacção popular de carga simbólica, tornaram-se num ingrediente de atracção turística. Nos dias que correm os "novos bairros" competem pela, camuflada, qualidade de vida, que se verifica através do cuidado que tem na reabilitação dos vestígios patrimoniais urbanos, tanto a nível do edificado como do ambiental. É sempre importante mostrar resquício do antigo, nem que seja a preservação de uma chaminé de um qualquer complexo industrial transformado em condomínio.
Este tipo de prática levanta questões a nível dos interventores – arquitectos, engenheiros, urbanistas – na maneira como se apropriam das práticas das suas disciplinas na reconversão de determinadas áreas ou edifícios de carácter histórico municipal ou para uma determinada comunidade que criou a sua identidade colectiva através desse mesmo complexo, Quando o principal argumento passa por " (...) pensar na importância (documental, histórica, estética material) destes, já escassos, sobreviventes (os edifícios históricos), dotados de um valor potencial, essencial a uma economia de futuro, virada para os serviços, para uma nova residencialidade urbana e para o turismo. É preciso perceber que os americanos e os japoneses vêm à Europa para ver as nossas cidades."3, até que ponto se pode apagar a memória colectiva e afectiva da ideia patrimonial de uma localidade para que o visitante possa usufruir da embriaguez estética (Leach 2005) do território edificado e ambiental?!
Vivemos num contexto de multiculturalidade global, em que se pretende marcar a diferença afastando-se do que o diferencia verdadeiramente, por pressão do exterior construindo um cenário de consenso e automática comparação com o outro, Portugal/Europa. É certa a necessidade do outro na estrutura da edificação de uma identidade, seja individual ou comunitária mas "ela precisa de seu tempo, o tempo do pensamento"4 para criar uma imagem sólida na dialéctica entre as várias escalas e tomada de consciência do que somos e de não como os outros querem que sejamos.
Concordamos com o geógrafo Orlando Ribeiro quando critica todos aqueles que se refugiam em "espaços teóricos ou abstractos"5 faltando-lhes "por completo o sentido do espaço concreto (...)"6, defendendo o confronto desses saberes teóricos com o espaço perceptível e a multidisciplinaridade de quem o analisa ou constrói a diversidade regional, amparada em pressupostos das chamadas Ciências Sociais e Humanas, para que se entendam, de como, segundo os autores Jean Rémy e Liliane Voyé, se dão as trocas sociais e culturais, ou seja, levamos a uma " (...) compreensão do estatuto do espaço e dos modos de agrupamento das populações e das actividades"7, para que não sejam as contingências econimico-turisticas a ditar o modo de intervenção no território.
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(Em elaboração)
------------------------------------------------------------------------Maribel Mendes Sobreira
------------------------------------------------------------------------Maribel Mendes Sobreira
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Publicada por Maribel Sobreira à(s) 11:55 4 comentáriosEtiquetas: Cultura, Educação, Património
Isto não vos diz nada?
E hoje surge esta notícia.
http://economico.sapo.pt/noticias/nao-estamos-especialmente-interessados-na-bertrand_76201.html
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Publicada por Serafina à(s) 23:40 2 comentáriosEtiquetas: Comunicação, Cultura
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Esfera Armilar - Da identidade histórico-cultural como limite a superar
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Paulo Borges
on domingo, 27 de dezembro de 2009
A história e a cultura constituem poderosos sistemas de condicionamentos e automatismos mentais, emocionais e práxicos que convidam, por via gregária e irreflectida, a um regime de consciência parcial, incapaz de compreender e aceitar a realidade humana, cósmica e divina na sua totalidade plural e complexa. A fixação de uma dada identidade histórico-cultural é, por isso mesmo, um notável contributo para o estreitamento da consciência e para o sofrimento e conflitos daí resultantes. Por isso mesmo, a cultura mais poderosa é aquela que a si mesma se não vir como um fim em si e antes como um meio para se libertar de si mesma. É esse o projecto da "cultura portuguesa", assumida por Vieira, Pessoa e Agostinho da Silva como trampolim para a universalidade, mediação para além de todas as mediações, sejam elas lusitanas ou lusófonas. O melhor de Portugal e da lusofonia é o que neles se esquece de se rever e assinar no espelho do mundo. O pior de Portugal e da lusofonia é o que no mesmo acto deixa a mácula da assinatura. Medíocre é o que se afirma. Grande o que se esquece. Supremo o que nunca se nomeou.
Contributo para o grupo de trabalho Educação e Cultura
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Maribel Sobreira
on terça-feira, 8 de dezembro de 2009
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Património
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Sendo o Património um dado cultural e educacional das nossas Cidades, que as anima e lhe dá identidade através do seu edificado, tornando-se este um dos suportes para enumeras actividades. Permitimo-nos a uma reflexão sobre a forma de como os mecanismos de legitimação são utilizados para validar "centros/zonas-históricas" ponde de lado o individuo, habitante de determinada malha territorial, tornando as cidades meros cenários para turistas.
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A ideia de apropriação territorial, no sentido de ocupação física e afectiva do espaço, leva a que um grupo procure o que o caracteriza, para que se posa distinguir do vizinho, como refere José Mattoso (2003) " eu pertenço a uma categoria de indivíduos que se caracterizam especificamente pela comum condição de portugueses e que se distinguem de todos os outros homens por estes não o serem (...)"1, podemos transpor estas palavras para o universo local, a ideia de pertença surge-nos primeiramente no universo da micro-micro-escala (local) para a micro-escala (glocal) e só depois passa para a macro-escala (global), ou seja, Lisboa – Portugal – Europa.
Essa necessidade leva a um levantamento do património material e imaterial, relevante para a afirmação da identidade do Município ou freguesia. A artista plástica Isabel Brison (1980, Lisboa) numa obra intitulada "Maravilhas de Portugal"2 (Lisboa_ 2008) reforça essa ideia, ironizando-a, expondo que "quando se quer dar a conhecer uma cidade, o procedimento usual é compilar os monumentos e espaços públicos mais famosos e mais representativos do local.". Referindo-se ao universo individual de assimilação cognitiva da cidade, o modo como se difunde e legitima a noção de identidade municipal, através do património histórico-cultural, tem consequências no discurso e leitura que se faz desse mesmo espaço, alterando-se a sua escala de posicionamento relativa às narrativas de identidade e memória.
Um dos instrumentos legitimadores dessa identidade é a visibilidade simbólica, materializada nos "centros históricos", construtores de memórias colectivas, tornando o passado num presente recente, que as periferias intra-municipais, com o advento da globalização e da hiper-realidade, reivindicam também elas a validação de possuírem "periferias históricas", as chamadas "zonas históricas"
Nunca, tanto como hoje, as questões de valorização, salvaguarda e recuperação do património urbano mereceram tão ampla atenção e preocupação dos vários agentes sociais, numa época em que a globalização dita o mercado, o modo de agir e pensar, as Cidades tornaram-se em elementos estéticos de fruição individual e colectiva, "objectos de desejo" (Leach 2005) mercantilizados, fomentando a competição entre os vários territórios, através da dinamização dos "centros históricos" em "cidades criativas" (Richard Florida 2003). Já lá vai a época em que o património urbano era um elemento estático de uma cidade, meramente contemplativo, torna-se agora como potencial económico de sustentabilidade da cidade através da atracção turística.
Com o advento da individualização da sociedade perdeu-se a noção de "bairro", na verdadeira acepção do conceito, em que existia um entrosamento de culturas e extractos sociais, hoje o que existe são "novos bairros" que segregam determinados grupos culturais e sociais. Outrora competia-se entre bairros através de eventos "culturais", como as tão famosas marchas populares, etc., que hoje não passam de elemento etnográfico lisboeta para o turista, em que as festas populares, que não passavam disso mesmo, da interacção popular de carga simbólica, tornaram-se num ingrediente de atracção turística. Nos dias que correm os "novos bairros" competem pela, camuflada, qualidade de vida, que se verifica através do cuidado que tem na reabilitação dos vestígios patrimoniais urbanos, tanto a nível do edificado como do ambiental. É sempre importante mostrar resquício do antigo, nem que seja a preservação de uma chaminé de um qualquer complexo industrial transformado em condomínio.
Este tipo de prática levanta questões a nível dos interventores – arquitectos, engenheiros, urbanistas – na maneira como se apropriam das práticas das suas disciplinas na reconversão de determinadas áreas ou edifícios de carácter histórico municipal ou para uma determinada comunidade que criou a sua identidade colectiva através desse mesmo complexo, Quando o principal argumento passa por " (...) pensar na importância (documental, histórica, estética material) destes, já escassos, sobreviventes (os edifícios históricos), dotados de um valor potencial, essencial a uma economia de futuro, virada para os serviços, para uma nova residencialidade urbana e para o turismo. É preciso perceber que os americanos e os japoneses vêm à Europa para ver as nossas cidades."3, até que ponto se pode apagar a memória colectiva e afectiva da ideia patrimonial de uma localidade para que o visitante possa usufruir da embriaguez estética (Leach 2005) do território edificado e ambiental?!
Vivemos num contexto de multiculturalidade global, em que se pretende marcar a diferença afastando-se do que o diferencia verdadeiramente, por pressão do exterior construindo um cenário de consenso e automática comparação com o outro, Portugal/Europa. É certa a necessidade do outro na estrutura da edificação de uma identidade, seja individual ou comunitária mas "ela precisa de seu tempo, o tempo do pensamento"4 para criar uma imagem sólida na dialéctica entre as várias escalas e tomada de consciência do que somos e de não como os outros querem que sejamos.
Concordamos com o geógrafo Orlando Ribeiro quando critica todos aqueles que se refugiam em "espaços teóricos ou abstractos"5 faltando-lhes "por completo o sentido do espaço concreto (...)"6, defendendo o confronto desses saberes teóricos com o espaço perceptível e a multidisciplinaridade de quem o analisa ou constrói a diversidade regional, amparada em pressupostos das chamadas Ciências Sociais e Humanas, para que se entendam, de como, segundo os autores Jean Rémy e Liliane Voyé, se dão as trocas sociais e culturais, ou seja, levamos a uma " (...) compreensão do estatuto do espaço e dos modos de agrupamento das populações e das actividades"7, para que não sejam as contingências econimico-turisticas a ditar o modo de intervenção no território.
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Um dos instrumentos legitimadores dessa identidade é a visibilidade simbólica, materializada nos "centros históricos", construtores de memórias colectivas, tornando o passado num presente recente, que as periferias intra-municipais, com o advento da globalização e da hiper-realidade, reivindicam também elas a validação de possuírem "periferias históricas", as chamadas "zonas históricas"
Nunca, tanto como hoje, as questões de valorização, salvaguarda e recuperação do património urbano mereceram tão ampla atenção e preocupação dos vários agentes sociais, numa época em que a globalização dita o mercado, o modo de agir e pensar, as Cidades tornaram-se em elementos estéticos de fruição individual e colectiva, "objectos de desejo" (Leach 2005) mercantilizados, fomentando a competição entre os vários territórios, através da dinamização dos "centros históricos" em "cidades criativas" (Richard Florida 2003). Já lá vai a época em que o património urbano era um elemento estático de uma cidade, meramente contemplativo, torna-se agora como potencial económico de sustentabilidade da cidade através da atracção turística.
Com o advento da individualização da sociedade perdeu-se a noção de "bairro", na verdadeira acepção do conceito, em que existia um entrosamento de culturas e extractos sociais, hoje o que existe são "novos bairros" que segregam determinados grupos culturais e sociais. Outrora competia-se entre bairros através de eventos "culturais", como as tão famosas marchas populares, etc., que hoje não passam de elemento etnográfico lisboeta para o turista, em que as festas populares, que não passavam disso mesmo, da interacção popular de carga simbólica, tornaram-se num ingrediente de atracção turística. Nos dias que correm os "novos bairros" competem pela, camuflada, qualidade de vida, que se verifica através do cuidado que tem na reabilitação dos vestígios patrimoniais urbanos, tanto a nível do edificado como do ambiental. É sempre importante mostrar resquício do antigo, nem que seja a preservação de uma chaminé de um qualquer complexo industrial transformado em condomínio.
Este tipo de prática levanta questões a nível dos interventores – arquitectos, engenheiros, urbanistas – na maneira como se apropriam das práticas das suas disciplinas na reconversão de determinadas áreas ou edifícios de carácter histórico municipal ou para uma determinada comunidade que criou a sua identidade colectiva através desse mesmo complexo, Quando o principal argumento passa por " (...) pensar na importância (documental, histórica, estética material) destes, já escassos, sobreviventes (os edifícios históricos), dotados de um valor potencial, essencial a uma economia de futuro, virada para os serviços, para uma nova residencialidade urbana e para o turismo. É preciso perceber que os americanos e os japoneses vêm à Europa para ver as nossas cidades."3, até que ponto se pode apagar a memória colectiva e afectiva da ideia patrimonial de uma localidade para que o visitante possa usufruir da embriaguez estética (Leach 2005) do território edificado e ambiental?!
Vivemos num contexto de multiculturalidade global, em que se pretende marcar a diferença afastando-se do que o diferencia verdadeiramente, por pressão do exterior construindo um cenário de consenso e automática comparação com o outro, Portugal/Europa. É certa a necessidade do outro na estrutura da edificação de uma identidade, seja individual ou comunitária mas "ela precisa de seu tempo, o tempo do pensamento"4 para criar uma imagem sólida na dialéctica entre as várias escalas e tomada de consciência do que somos e de não como os outros querem que sejamos.
Concordamos com o geógrafo Orlando Ribeiro quando critica todos aqueles que se refugiam em "espaços teóricos ou abstractos"5 faltando-lhes "por completo o sentido do espaço concreto (...)"6, defendendo o confronto desses saberes teóricos com o espaço perceptível e a multidisciplinaridade de quem o analisa ou constrói a diversidade regional, amparada em pressupostos das chamadas Ciências Sociais e Humanas, para que se entendam, de como, segundo os autores Jean Rémy e Liliane Voyé, se dão as trocas sociais e culturais, ou seja, levamos a uma " (...) compreensão do estatuto do espaço e dos modos de agrupamento das populações e das actividades"7, para que não sejam as contingências econimico-turisticas a ditar o modo de intervenção no território.
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(Em elaboração)
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Serafina
on segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
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E hoje surge esta notícia.
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Manifesto
2010 é o ano em que passa um século sobre a implantação da República em Portugal e no início de 2011 realizar-se-ão eleições presidenciais. Independentemente da questão do regime, 2010 impõe-se como um marco fundamental para lançar uma reflexão pública sobre o país e o mundo que temos e queremos. Reflexão tanto mais urgente quanto há sinais cada vez mais evidentes do crescente divórcio entre o Estado e a sociedade, traduzido em eleições onde a abstenção triunfa sistematicamente, fruto do descrédito galopante da classe política, da própria política e do deserto de ideias em que vivemos, mas também do comodismo e indiferentismo dos portugueses, que muito criticam, mas dificilmente buscam conceber alternativas e pô-las em prática.
Aqui se apresenta a proposta de um cidadão português que, no decurso da sua docência universitária, obra publicada e intervenção cultural, tem seguido com interesse e preocupação os rumos recentes de Portugal e do mundo. Convicto de que urge refundar Portugal, eis uma lista de prioridades para o país e o mundo melhor a que temos direito e que todos temos o dever de construir. Agradecem-se os contributos críticos, de modo a que a proposta se aperfeiçoe e complete e sirva de plataforma para a discussão pública e a intervenção cultural e cívica que visa, pelos meios que se verificarem ser os mais oportunos.
I – Portugal é uma nação que, pela diáspora planetária da sua história e cultura, pela situação geográfica e pela língua, com 240 milhões de falantes em toda a comunidade lusófona, tem a potencialidade de ser uma nação cosmopolita, uma nação de todo o mundo, que estabeleça pontes, mediações e diálogos entre todos os povos, culturas e civilizações. Este perfil vocaciona-nos para o cultivo dos valores mais universalistas, promovendo o diálogo com todas as culturas mundiais. Os valores mais universalistas são aqueles que promovam o melhor possível para todos, uma cultura da paz, da compreensão e da fraternidade à escala planetária, visando não apenas o bem da espécie humana, mas também a preservação da natureza e do bem-estar de todas as formas de vida animal, como condição da própria qualidade e dignidade da vida humana.
II – O nosso potencial universalista tem sido sistematicamente ignorado pelas nossas orientações governativas, desde a época dos Descobrimentos até hoje. Se no passado predominou a pretensão de dilatar a Fé e o Império, hoje predomina a sujeição da nação aos novos senhores do mundo, as grandes esferas de interesses político-económicos. Portugal está ao serviço da globalização de um paradigma de desenvolvimento económico-tecnológico que explora desenfreadamente os recursos naturais e instrumentaliza homens e animais, donde resulta um enorme sofrimento, um fosso crescente entre homens, classes, povos e nações, a redução da biodiversidade e o arrastar do planeta para uma crise sem precedentes.
III – A assunção do nosso potencial universalista implica uma reforma das mentalidades, com plena expressão ética, cultural, social, política e económica. Nesse sentido se propõem as seguintes medidas urgentes, que visam implementar entre nós um novo paradigma, convergente com as melhores aspirações humanas e com os grandes desafios deste início do século XXI:
1 – Portugal deve dar prioridade absoluta a um desenvolvimento económico sustentado, que salvaguarde a harmonia ecológica e o bem-estar da população humana e animal. A Constituição da República Portuguesa deve consagrar a senciência dos animais – a sua capacidade de sentir dor e prazer - e o seu direito à vida e ao bem-estar. Portugal deve aprender com a legislação das nações europeias mais evoluídas neste domínio, adaptando-a à realidade nacional.
2 – Portugal deve ensaiar modelos de desenvolvimento alternativos, que preservem e promovam a diversidade cultural, biológica e ecoregional. Há que promover a sustentabilidade económica do país, desenvolvendo as economias locais. Devem-se substituir quanto possível as energias não-renováveis (petróleo, carvão, gás natural, energia nuclear), por energias renováveis e alternativas (solar, eólica, hidráulica, marmotriz, etc.), superando o paradigma, a vulnerabilidade e as dependências de uma economia baseada no petróleo e nos hidrocarbonetos. Deve-se particularmente explorar as potencialidades energéticas dos nossos mais de 900 km de costa.
3 - Devem-se ensaiar formas de organização económica cujo objectivo fundamental não seja apenas o lucro financeiro. Deve-se assegurar o predomínio da ética e da política sobre a economia, de modo a que a produção e distribuição da riqueza vise o bem comum do ecossistema e dos seres vivos, a satisfação das necessidades básicas dos homens e a melhoria geral da sua qualidade de vida, bem como o acesso de todos à educação e à cultura.
4 - Deve-se investir num programa pedagógico de redução das necessidades artificiais que permita oferecer alternativas ao produtivismo e consumismo, fazendo do trabalho e do desenvolvimento económico não um fim em si, com o inevitável dano da harmonia ecológica, da biodiversidade e do bem-estar de homens e animais, mas um mero meio para a fruição de um crescente tempo livre de modo mais gratificante e criativo. Deve-se fiscalizar mais rigorosamente o crédito ao consumo, de forma a evitar o crescente endividamento das famílias.
5 – Há que criar um serviço público de saúde eficiente e acessível a todos, que inclua a possibilidade de optar por medicinas e terapias alternativas, de qualidade e eficácia comprovada, como a homeopatia, a acupunctura, a osteopatia, o shiatsu, o yoga, a meditação, etc. Estas opções, bem como os medicamentos naturais e alternativos, devem ser igualmente comparticipadas pelo Estado.
6 – Importa informar e sensibilizar a população para os efeitos nocivos de vários hábitos alimentares - nomeadamente o consumo excessivo de carne - , para o meio ambiente, a saúde pública e o bem-estar de homens e animais. Sendo uma das principais causas do aquecimento global, do esgotamento dos recursos naturais e do sofrimento dos animais, há que restringir e criar alternativas à agropecuária intensiva. Deve-se divulgar a possibilidade de se viver saudavelmente com uma alimentação não-carnívora, vegetariana ou vegan e devem-se reduzir os impostos sobre os produtos de origem natural e biológica.
7 - Portugal, a par do desenvolvimento económico sustentado, deve investir sobretudo nos domínios da saúde, da educação e da cultura, não só tecnológica, mas filosófica, literária, artística e científica. O Orçamento do Estado deve reflectir isso, reduzindo os gastos com a Defesa, o Exército e as obras públicas de fachada. Urge moralizar e reduzir os salários e reformas de presidentes, ministros, deputados e detentores de cargos na administração pública e privada, a par do aumento dos impostos sobre os grandes rendimentos.
8 - Redignificar, com exigência, os professores e todos os profissionais ligados à educação e à cultura. A educação e a cultura não devem estar dependentes de critérios economicistas e das flutuações do mercado de emprego. Os vários níveis de ensino visarão a formação integral da pessoa, não a sacrificando a uma mera funcionalização profissional. A par disto, há que sensibilizar as famílias para não abandonarem as crianças em frente dos computadores e dos maus programas de televisão. A televisão pública deve melhorar o seu nível, investindo mais em programas de informação e formação.
Nos vários níveis de ensino deve ser introduzida uma disciplina que sensibilize para o respeito pela natureza, a vida humana e a vida animal, bem como outra que informe sobre a diversidade de paradigmas culturais, morais e religiosos coexistentes nas sociedades contemporâneas. Nos mesmos níveis de ensino deve estar presente a cultura portuguesa e lusófona, bem como as várias culturas planetárias. Um português culto e bem formado deve ter uma consciência lusófona e universal, não apenas europeia-ocidental.
A meditação, com benefícios científicamente reconhecidos - quanto ao equilíbrio e saúde psicofisiológicos, ao aumento da concentração e da memória, à melhoria na aprendizagem, à maior eficiência no trabalho e à harmonia nas relações humanas - , deve ser facultada em todos os níveis dos currículos escolares, em termos puramente laicos, sem qualquer componente religiosa.
9 - Portugal deve assumir-se na primeira linha da defesa dos direitos humanos e dos seres vivos em todos os pontos do planeta em que sejam violados, sem obedecer a pressões políticas ou económicas internacionais. Portugal deve ser um lugar de bom acolhimento para todos os emigrantes e estrangeiros que o procurem para trabalhar e viver.
10 – Portugal deve aprofundar as relações culturais, económicas e políticas com as nações de língua portuguesa, incluindo a região da Galiza, Goa, Damão, Diu, Macau e os outros lugares da nossa diáspora onde se fala o português, sensibilizando a comunidade lusófona para as causas universais, ambientais, humanitárias e animais.
11 - Portugal deve promover a Lusofonia e os valores universalistas da cultura portuguesa e lusófona no mundo, dando o seu melhor exemplo e contributo para converter a sociedade planetária na possível comunidade ético-cultural e ecuménica visada entre nós por Luís de Camões, Padre António Vieira, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva. Portugal deve assumir-se como um espaço multicultural e de convivência com a diversidade, um espaço privilegiado para o tão actual desafio do diálogo intercultural e inter-religioso, alargado ao diálogo entre crentes e descrentes. Deve precaver-se contudo de tentações neo-imperialistas e de qualquer nacionalismo lusófono ou lusocêntrico. A Lusofonia não deve abafar outras línguas e culturas que existam no seu espaço.
12 - Verifica-se haver em Portugal e na Europa em geral uma grave crise de representação eleitoral, patente na elevada abstenção e descrédito dos políticos, dos partidos e da política, os quais, segundo a opinião geral, apenas promovem o acesso ao poder de indivíduos e grupos que sacrificam o bem comum a interesses pessoais e particulares, com destaque para os das grandes forças económicas. As eleições são assim sistematicamente ganhas por representantes de minorias, relativamente à totalidade dos cidadãos eleitores, que governam isolados da maioria real das populações, que os consideram com alheamento, desconfiança e desprezo, tornando-se vítimas passivas das suas políticas. O actual sistema eleitoral também não promove a melhor justiça representativa, não facilitando a representação de uma maior diversidade de forças políticas e limitando-a às organizações partidárias, o que contribui para a instrumentalização do aparelho de Estado, dos lugares de decisão político-económica e da comunicação social pelos grandes partidos.
Esta é uma situação que compromete seriamente a democracia e que a história ensina anteceder todas as tentativas de soluções ditatoriais. Há que regenerar a democracia em Portugal, reformando o estado e o sistema eleitoral segundo modelos que fomentem a mais ampla participação e intervenção política da sociedade civil, facilitando a representação de novas forças políticas e possibilitando que cidadãos independentes concorram às eleições. Deve-se recuperar a tradição municipalista portuguesa e promover uma regionalização e descentralização administrativa equilibradas, assegurando mecanismos de prevenção e controlo dos despotismos locais.
Há que colocar a política ao serviço da ética e da cultura e mobilizar a população para a intervenção cívica e política em torno dos desafios fundamentais do nosso tempo, com destaque para a protecção da natureza, o bem-estar dos seres vivos e uma nova consciência planetária. Há que mobilizar os cidadãos indiferentes e descrentes da vida política, a enorme percentagem de abstencionistas e todos aqueles que se limitam a votar, para a responsabilidade de reflectirem, discutirem e criarem o melhor destino a dar à nação. Há que, dentro dos quadros democráticos e legais, promover formas alternativas de intervenção cultural, social e cívica, que permitam antecipar tanto quanto possível a realidade desejada, sem depender dos poderes instituídos.
Convicto de que estas medidas permitirão que Portugal recupere o pioneirismo e criatividade que o caracterizou no impulso dos Descobrimentos, mas agora sem escravizar e explorar outros povos, apelo a que todos dêem o vosso contributo para a discussão, aperfeiçoamento e divulgação deste Manifesto. De todos nós depende que ele se constitua na plataforma de um movimento cívico e cultural de reflexão e acção, que nos arranque ao comodismo e passividade em que estamos instalados.
Por um Outro Portugal!
Aqui se apresenta a proposta de um cidadão português que, no decurso da sua docência universitária, obra publicada e intervenção cultural, tem seguido com interesse e preocupação os rumos recentes de Portugal e do mundo. Convicto de que urge refundar Portugal, eis uma lista de prioridades para o país e o mundo melhor a que temos direito e que todos temos o dever de construir. Agradecem-se os contributos críticos, de modo a que a proposta se aperfeiçoe e complete e sirva de plataforma para a discussão pública e a intervenção cultural e cívica que visa, pelos meios que se verificarem ser os mais oportunos.
I – Portugal é uma nação que, pela diáspora planetária da sua história e cultura, pela situação geográfica e pela língua, com 240 milhões de falantes em toda a comunidade lusófona, tem a potencialidade de ser uma nação cosmopolita, uma nação de todo o mundo, que estabeleça pontes, mediações e diálogos entre todos os povos, culturas e civilizações. Este perfil vocaciona-nos para o cultivo dos valores mais universalistas, promovendo o diálogo com todas as culturas mundiais. Os valores mais universalistas são aqueles que promovam o melhor possível para todos, uma cultura da paz, da compreensão e da fraternidade à escala planetária, visando não apenas o bem da espécie humana, mas também a preservação da natureza e do bem-estar de todas as formas de vida animal, como condição da própria qualidade e dignidade da vida humana.
II – O nosso potencial universalista tem sido sistematicamente ignorado pelas nossas orientações governativas, desde a época dos Descobrimentos até hoje. Se no passado predominou a pretensão de dilatar a Fé e o Império, hoje predomina a sujeição da nação aos novos senhores do mundo, as grandes esferas de interesses político-económicos. Portugal está ao serviço da globalização de um paradigma de desenvolvimento económico-tecnológico que explora desenfreadamente os recursos naturais e instrumentaliza homens e animais, donde resulta um enorme sofrimento, um fosso crescente entre homens, classes, povos e nações, a redução da biodiversidade e o arrastar do planeta para uma crise sem precedentes.
III – A assunção do nosso potencial universalista implica uma reforma das mentalidades, com plena expressão ética, cultural, social, política e económica. Nesse sentido se propõem as seguintes medidas urgentes, que visam implementar entre nós um novo paradigma, convergente com as melhores aspirações humanas e com os grandes desafios deste início do século XXI:
1 – Portugal deve dar prioridade absoluta a um desenvolvimento económico sustentado, que salvaguarde a harmonia ecológica e o bem-estar da população humana e animal. A Constituição da República Portuguesa deve consagrar a senciência dos animais – a sua capacidade de sentir dor e prazer - e o seu direito à vida e ao bem-estar. Portugal deve aprender com a legislação das nações europeias mais evoluídas neste domínio, adaptando-a à realidade nacional.
2 – Portugal deve ensaiar modelos de desenvolvimento alternativos, que preservem e promovam a diversidade cultural, biológica e ecoregional. Há que promover a sustentabilidade económica do país, desenvolvendo as economias locais. Devem-se substituir quanto possível as energias não-renováveis (petróleo, carvão, gás natural, energia nuclear), por energias renováveis e alternativas (solar, eólica, hidráulica, marmotriz, etc.), superando o paradigma, a vulnerabilidade e as dependências de uma economia baseada no petróleo e nos hidrocarbonetos. Deve-se particularmente explorar as potencialidades energéticas dos nossos mais de 900 km de costa.
3 - Devem-se ensaiar formas de organização económica cujo objectivo fundamental não seja apenas o lucro financeiro. Deve-se assegurar o predomínio da ética e da política sobre a economia, de modo a que a produção e distribuição da riqueza vise o bem comum do ecossistema e dos seres vivos, a satisfação das necessidades básicas dos homens e a melhoria geral da sua qualidade de vida, bem como o acesso de todos à educação e à cultura.
4 - Deve-se investir num programa pedagógico de redução das necessidades artificiais que permita oferecer alternativas ao produtivismo e consumismo, fazendo do trabalho e do desenvolvimento económico não um fim em si, com o inevitável dano da harmonia ecológica, da biodiversidade e do bem-estar de homens e animais, mas um mero meio para a fruição de um crescente tempo livre de modo mais gratificante e criativo. Deve-se fiscalizar mais rigorosamente o crédito ao consumo, de forma a evitar o crescente endividamento das famílias.
5 – Há que criar um serviço público de saúde eficiente e acessível a todos, que inclua a possibilidade de optar por medicinas e terapias alternativas, de qualidade e eficácia comprovada, como a homeopatia, a acupunctura, a osteopatia, o shiatsu, o yoga, a meditação, etc. Estas opções, bem como os medicamentos naturais e alternativos, devem ser igualmente comparticipadas pelo Estado.
6 – Importa informar e sensibilizar a população para os efeitos nocivos de vários hábitos alimentares - nomeadamente o consumo excessivo de carne - , para o meio ambiente, a saúde pública e o bem-estar de homens e animais. Sendo uma das principais causas do aquecimento global, do esgotamento dos recursos naturais e do sofrimento dos animais, há que restringir e criar alternativas à agropecuária intensiva. Deve-se divulgar a possibilidade de se viver saudavelmente com uma alimentação não-carnívora, vegetariana ou vegan e devem-se reduzir os impostos sobre os produtos de origem natural e biológica.
7 - Portugal, a par do desenvolvimento económico sustentado, deve investir sobretudo nos domínios da saúde, da educação e da cultura, não só tecnológica, mas filosófica, literária, artística e científica. O Orçamento do Estado deve reflectir isso, reduzindo os gastos com a Defesa, o Exército e as obras públicas de fachada. Urge moralizar e reduzir os salários e reformas de presidentes, ministros, deputados e detentores de cargos na administração pública e privada, a par do aumento dos impostos sobre os grandes rendimentos.
8 - Redignificar, com exigência, os professores e todos os profissionais ligados à educação e à cultura. A educação e a cultura não devem estar dependentes de critérios economicistas e das flutuações do mercado de emprego. Os vários níveis de ensino visarão a formação integral da pessoa, não a sacrificando a uma mera funcionalização profissional. A par disto, há que sensibilizar as famílias para não abandonarem as crianças em frente dos computadores e dos maus programas de televisão. A televisão pública deve melhorar o seu nível, investindo mais em programas de informação e formação.
Nos vários níveis de ensino deve ser introduzida uma disciplina que sensibilize para o respeito pela natureza, a vida humana e a vida animal, bem como outra que informe sobre a diversidade de paradigmas culturais, morais e religiosos coexistentes nas sociedades contemporâneas. Nos mesmos níveis de ensino deve estar presente a cultura portuguesa e lusófona, bem como as várias culturas planetárias. Um português culto e bem formado deve ter uma consciência lusófona e universal, não apenas europeia-ocidental.
A meditação, com benefícios científicamente reconhecidos - quanto ao equilíbrio e saúde psicofisiológicos, ao aumento da concentração e da memória, à melhoria na aprendizagem, à maior eficiência no trabalho e à harmonia nas relações humanas - , deve ser facultada em todos os níveis dos currículos escolares, em termos puramente laicos, sem qualquer componente religiosa.
9 - Portugal deve assumir-se na primeira linha da defesa dos direitos humanos e dos seres vivos em todos os pontos do planeta em que sejam violados, sem obedecer a pressões políticas ou económicas internacionais. Portugal deve ser um lugar de bom acolhimento para todos os emigrantes e estrangeiros que o procurem para trabalhar e viver.
10 – Portugal deve aprofundar as relações culturais, económicas e políticas com as nações de língua portuguesa, incluindo a região da Galiza, Goa, Damão, Diu, Macau e os outros lugares da nossa diáspora onde se fala o português, sensibilizando a comunidade lusófona para as causas universais, ambientais, humanitárias e animais.
11 - Portugal deve promover a Lusofonia e os valores universalistas da cultura portuguesa e lusófona no mundo, dando o seu melhor exemplo e contributo para converter a sociedade planetária na possível comunidade ético-cultural e ecuménica visada entre nós por Luís de Camões, Padre António Vieira, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva. Portugal deve assumir-se como um espaço multicultural e de convivência com a diversidade, um espaço privilegiado para o tão actual desafio do diálogo intercultural e inter-religioso, alargado ao diálogo entre crentes e descrentes. Deve precaver-se contudo de tentações neo-imperialistas e de qualquer nacionalismo lusófono ou lusocêntrico. A Lusofonia não deve abafar outras línguas e culturas que existam no seu espaço.
12 - Verifica-se haver em Portugal e na Europa em geral uma grave crise de representação eleitoral, patente na elevada abstenção e descrédito dos políticos, dos partidos e da política, os quais, segundo a opinião geral, apenas promovem o acesso ao poder de indivíduos e grupos que sacrificam o bem comum a interesses pessoais e particulares, com destaque para os das grandes forças económicas. As eleições são assim sistematicamente ganhas por representantes de minorias, relativamente à totalidade dos cidadãos eleitores, que governam isolados da maioria real das populações, que os consideram com alheamento, desconfiança e desprezo, tornando-se vítimas passivas das suas políticas. O actual sistema eleitoral também não promove a melhor justiça representativa, não facilitando a representação de uma maior diversidade de forças políticas e limitando-a às organizações partidárias, o que contribui para a instrumentalização do aparelho de Estado, dos lugares de decisão político-económica e da comunicação social pelos grandes partidos.
Esta é uma situação que compromete seriamente a democracia e que a história ensina anteceder todas as tentativas de soluções ditatoriais. Há que regenerar a democracia em Portugal, reformando o estado e o sistema eleitoral segundo modelos que fomentem a mais ampla participação e intervenção política da sociedade civil, facilitando a representação de novas forças políticas e possibilitando que cidadãos independentes concorram às eleições. Deve-se recuperar a tradição municipalista portuguesa e promover uma regionalização e descentralização administrativa equilibradas, assegurando mecanismos de prevenção e controlo dos despotismos locais.
Há que colocar a política ao serviço da ética e da cultura e mobilizar a população para a intervenção cívica e política em torno dos desafios fundamentais do nosso tempo, com destaque para a protecção da natureza, o bem-estar dos seres vivos e uma nova consciência planetária. Há que mobilizar os cidadãos indiferentes e descrentes da vida política, a enorme percentagem de abstencionistas e todos aqueles que se limitam a votar, para a responsabilidade de reflectirem, discutirem e criarem o melhor destino a dar à nação. Há que, dentro dos quadros democráticos e legais, promover formas alternativas de intervenção cultural, social e cívica, que permitam antecipar tanto quanto possível a realidade desejada, sem depender dos poderes instituídos.
Convicto de que estas medidas permitirão que Portugal recupere o pioneirismo e criatividade que o caracterizou no impulso dos Descobrimentos, mas agora sem escravizar e explorar outros povos, apelo a que todos dêem o vosso contributo para a discussão, aperfeiçoamento e divulgação deste Manifesto. De todos nós depende que ele se constitua na plataforma de um movimento cívico e cultural de reflexão e acção, que nos arranque ao comodismo e passividade em que estamos instalados.
Por um Outro Portugal!
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