Um espaço para reinventar Portugal como nação de todo o Mundo, que estabeleça pontes, mediações e diálogos entre todos os povos, culturas e civilizações e promova os valores mais universalistas, conforme o símbolo da Esfera Armilar. Há que visar o melhor possível para todos, uma cultura da paz, da compreensão e da fraternidade à escala planetária, orientada não só para o bem da espécie humana, mas também para a preservação da natureza e o bem-estar de todas as formas de vida sencientes.

"Nós, Portugal, o poder ser"

- Fernando Pessoa, Mensagem.

Do Diálogo Inter-Religioso

Embora não ache aconselhável que as pessoas abandonem a sua religião de origem, acredito que o praticante de uma determinada tradição pode incorporar na sua prática métodos de transformação espiritual pertencentes a outras tradições. Por exemplo, alguns dos meus amigos cristãos, embora profundamente fiéis à sua tradição, incorporam na sua prática antigos métodos indianos para cultivar a concentração num só ponto através da meditação. Utilizam também métodos budistas para treinar o espírito através da meditação, visualizações para cultivar a compaixão e práticas que ajudam a cultivar a paciência. Estes cristãos sinceros permanecem fiéis à sua tradição espiritual, embora adoptando aspectos e métodos pertencentes a outros ensinamentos. Acho que é benéfico e parece-me bastante sensato da sua parte.

Penso que esta atitude deve ser recíproca, e que os budistas também podem incorporar certos elementos da tradição cristã na sua prática. Por exemplo, a tradição do serviço prestado à comunidade. Na tradição cristã, os monges e as monjas têm uma longa história de serviço comunitário, em especial no campo da educação e da saúde. Na área do serviço social prestado à comunidade, o budismo vem muito atrás do cristianismo. Um amio meu, alemão e budista, fez-me notar que, apesar de terem sido construído muitos mosteiros tibetanos nos últimos anos no Nepal, apenas um punhado deles construiu escolas e hospitais. Se se tratasse de mosteiros cristãos, dizia ele, decerto que a esse número crescente de mosteiros corresponderia um número igualmente crescente de escolas e de serviços de saúde. Enquanto budista, não pude deixar de concordar com ele. Não há dúvida de que os budistas têm muito a aprender com os cristão no que respeita ao serviço social.

Alguns amigos meus cristãos manifestaram um profundo interesse pelo pelo conceito budista de vacuidade. Dise-lhes, porém, que o ensinamento sobre a vacuidade -  o facto de as coisas serem desprovidas de realidade absoluta e independente - é específico do budismo e que, por coneguinte, talvez não seja aconselhável, a um cristão que queira permanecer fiel à sua tradição, aprofundar demasiado este aspecto do ensinamento budista. A razão para esta advertência é que o facto de aprofundar os ensinamentos budistas sobre a vacuidade e procurar segui-los pode comprometer a fé no Criador, um ser absoluto, independente, eterno, ou seja, o oposto da vacuidade.

Muitas pessoas sentem um grande respeito pelo budismo e pelo cristianismo, em particular pelos ensinamentos de Buda Shakyamuni e de Jesus Cristo. Sem dúvida que é muito importante respeitar os mestres e os ensinamentos de todas as religiões e é possível, numa fase inicial, praticar o budismo e o cristianismo ao mesmo tempo. Mas, se quisermos aprofundar o nosso caminho espiritual, vai ser ncessário, a dada altura, comprometermo-nos de forma mais profunda com um deles e com a sua metafísica própria.

Sua Santidade o Dalai Lama, O Coração da Sabedoria, Cascais, Editora Pergaminho, 2008, pp.24-26

4 comentários:

Laura disse...

Ou talvez esse conceito deva ser explorado, pois talvez a mensagem de Jesus tenha sido mal interpretada pelos cristãos? Ou pelos que se arrogaram intermediários dessa mensagem?

Laura disse...

Kunzang Dorje, falta solicitar a sua permissão para publicar os seus contributos no fórum. Posso? Como vai funcionar como base de dados, era importante ficar lá tudo.

Kunzang Dorje disse...

Laura, claro que sim:)
abraço

João Beato disse...

Concordo com o comentário da Laura. Não subscrevo totalmente a última recomendação do Dalai Lama, porque o conhecimento da doutrina da vacuidade por parte de um cristão até lhe poderá revelar (dependendo da sua maturidade) uma dimensão bem mais vasta do que ele poderá entender pela palavra "Deus" e diminuir, assim, os abismos existentes na compreensão das diferentes religiões.
Se por ventura tal conhecimento puser em causa a fidelidade ao cristianismo por questionar o conceito de "Deus criador" (que não passa de um mero conceito), e provocar uma "crise de fé", tanto melhor. Isso significa que essa pessoa passou a ter uma perspectiva crítica.

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Do Diálogo Inter-Religioso

Embora não ache aconselhável que as pessoas abandonem a sua religião de origem, acredito que o praticante de uma determinada tradição pode incorporar na sua prática métodos de transformação espiritual pertencentes a outras tradições. Por exemplo, alguns dos meus amigos cristãos, embora profundamente fiéis à sua tradição, incorporam na sua prática antigos métodos indianos para cultivar a concentração num só ponto através da meditação. Utilizam também métodos budistas para treinar o espírito através da meditação, visualizações para cultivar a compaixão e práticas que ajudam a cultivar a paciência. Estes cristãos sinceros permanecem fiéis à sua tradição espiritual, embora adoptando aspectos e métodos pertencentes a outros ensinamentos. Acho que é benéfico e parece-me bastante sensato da sua parte.

Penso que esta atitude deve ser recíproca, e que os budistas também podem incorporar certos elementos da tradição cristã na sua prática. Por exemplo, a tradição do serviço prestado à comunidade. Na tradição cristã, os monges e as monjas têm uma longa história de serviço comunitário, em especial no campo da educação e da saúde. Na área do serviço social prestado à comunidade, o budismo vem muito atrás do cristianismo. Um amio meu, alemão e budista, fez-me notar que, apesar de terem sido construído muitos mosteiros tibetanos nos últimos anos no Nepal, apenas um punhado deles construiu escolas e hospitais. Se se tratasse de mosteiros cristãos, dizia ele, decerto que a esse número crescente de mosteiros corresponderia um número igualmente crescente de escolas e de serviços de saúde. Enquanto budista, não pude deixar de concordar com ele. Não há dúvida de que os budistas têm muito a aprender com os cristão no que respeita ao serviço social.

Alguns amigos meus cristãos manifestaram um profundo interesse pelo pelo conceito budista de vacuidade. Dise-lhes, porém, que o ensinamento sobre a vacuidade -  o facto de as coisas serem desprovidas de realidade absoluta e independente - é específico do budismo e que, por coneguinte, talvez não seja aconselhável, a um cristão que queira permanecer fiel à sua tradição, aprofundar demasiado este aspecto do ensinamento budista. A razão para esta advertência é que o facto de aprofundar os ensinamentos budistas sobre a vacuidade e procurar segui-los pode comprometer a fé no Criador, um ser absoluto, independente, eterno, ou seja, o oposto da vacuidade.

Muitas pessoas sentem um grande respeito pelo budismo e pelo cristianismo, em particular pelos ensinamentos de Buda Shakyamuni e de Jesus Cristo. Sem dúvida que é muito importante respeitar os mestres e os ensinamentos de todas as religiões e é possível, numa fase inicial, praticar o budismo e o cristianismo ao mesmo tempo. Mas, se quisermos aprofundar o nosso caminho espiritual, vai ser ncessário, a dada altura, comprometermo-nos de forma mais profunda com um deles e com a sua metafísica própria.

Sua Santidade o Dalai Lama, O Coração da Sabedoria, Cascais, Editora Pergaminho, 2008, pp.24-26

4 comentários:

Laura disse...

Ou talvez esse conceito deva ser explorado, pois talvez a mensagem de Jesus tenha sido mal interpretada pelos cristãos? Ou pelos que se arrogaram intermediários dessa mensagem?

Laura disse...

Kunzang Dorje, falta solicitar a sua permissão para publicar os seus contributos no fórum. Posso? Como vai funcionar como base de dados, era importante ficar lá tudo.

Kunzang Dorje disse...

Laura, claro que sim:)
abraço

João Beato disse...

Concordo com o comentário da Laura. Não subscrevo totalmente a última recomendação do Dalai Lama, porque o conhecimento da doutrina da vacuidade por parte de um cristão até lhe poderá revelar (dependendo da sua maturidade) uma dimensão bem mais vasta do que ele poderá entender pela palavra "Deus" e diminuir, assim, os abismos existentes na compreensão das diferentes religiões.
Se por ventura tal conhecimento puser em causa a fidelidade ao cristianismo por questionar o conceito de "Deus criador" (que não passa de um mero conceito), e provocar uma "crise de fé", tanto melhor. Isso significa que essa pessoa passou a ter uma perspectiva crítica.

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