Um espaço para reinventar Portugal como nação de todo o Mundo, que estabeleça pontes, mediações e diálogos entre todos os povos, culturas e civilizações e promova os valores mais universalistas, conforme o símbolo da Esfera Armilar. Há que visar o melhor possível para todos, uma cultura da paz, da compreensão e da fraternidade à escala planetária, orientada não só para o bem da espécie humana, mas também para a preservação da natureza e o bem-estar de todas as formas de vida sencientes.

"Nós, Portugal, o poder ser"

- Fernando Pessoa, Mensagem.

Caros amigos

Permitam que partilhe convosco um texto, um pouco longo, é certo, mas pertinente. Pensei que o poderia enviar ao grupo de política, como uma contribuição à sua reflexão, mas depois decidi que interessa a todos nós, grupo que se assume como aberto a diferentes convicções. Afinal existem muitos portugueses que pensam sobre o estado do mundo!
O texto foi retirado do último número da revista “Utopia”, revista de intervenção anarquista e surge como resposta às criticas levantadas pelo sociólogo João Freire às “21 Teses Sobre o Trabalho” de José Tavares, o autor do texto que passo a transcrever (não na sua totalidade).

“TRABALHO, UMA NOÇÃO QUESTIONADA

O dia em que os donos e senhores da ordem social existente admitirem que a sociedade poderia ser muito diferente daquilo que é nunca chegará. Mais depressa hão-de fundar uma enésima ideologia para provar que esta sociedade (hierarquizada, capitalista, tecnofílica) é a única possível, que não se pode conceber a existência humana sem trabalho assalariado e que uma pessoa, para «ganhar a vida», tem de submeter-se a esse trabalho. Ou seja, que o mundo só assim funciona; que as coisas são «naturalmente» assim.
Ressalvadas as devidas proporções, essa ideia existiu também na mente de muitos revolucionários, de diferentes tendências, inclusive entre libertários ou comunistas que travaram encarniçados combates contra os donos do trabalho. Também para eles as coisas eram assim. De resto, a maioria das pessoas é levada a pensar dessa maneira. É sem dúvida difícil para qualquer um de nós conceber um mundo onde possamos ser donos do nosso próprio tempo, onde não tenhamos de vender algo de nós próprios em troca de dinheiro e de sobreviver consumindo mercadorias. Na impossibilidade de se conceber a vida de outra maneira, são inevitáveis o suplício, a dor, a injustiça, a opressão, expressões que reflectem o modo como funciona o cérebro da grande maioria dos humanos.
Mas pode também conceber-se um mundo em que não exista o trabalho – venda e aluguer do corpo e do tempo, obrigação e dependência, aniquilamento psíquico (e concomitante destruição da biosfera).
Esta contingência crítica manifesta-se mais nitidamente na presente sociedade, que é, por excelência, a sociedade do trabalho, do consumismo, da destruição dos meios elementares da vida e de um neo-autoritarismo um pouco peculiar. E manifesta-se não só porque os seres humanos podem pensar, formulando formas de emancipação, mas também porque as condições reais do trabalho levam as pessoas à prática de um permanente absentismo, de faltas de pontualidade, de supostas doenças, de furtos, de pequenas sabotagens e de outras formas de aversão ao trabalho. Por outro lado, é difícil não vermos que uma parte, pelo menos, das mercadorias produzidas corresponde a desperdícios inúteis, a alimentos desvitalizados ou mesmo nefastos, à construção de habitats desastrosos e concentracionários, ao fabrico de uma crescente panóplia de objectos patológicos. Tal como é difícil não sentir a catástrofe ecológica que está a acontecer por força da industrialização destrutiva e do feiticismo mercantilista, ou não saber que o «trabalho para todos» foi transformado na ilusão de que o trabalho é um privilégio a que somente «os eleitos» têm acesso. E no entanto o trabalho continua a ser aquilo que sempre foi: um instrumento nas mãos de poucos para explorar e supliciar a vida dos restantes.
João Freire (a seguir designado J.F.) desaprecia e tenta retirar sentido às críticas anarquistas, nomeadamente àquelas que exprimi em relação ao trabalho compulsivo. Começa por acusar de ser suposta a ligação entre a palavra trabalho e o termo latino tripalium. Mas até mesmo o professor e investigador José Machado Pais, doutorado em sociologia e licenciado em economia, tem outro entendimento: «o termo trabalho – escreve ele – tem raízes etimológicas no latim: trabalho dizia-se tripalium, que designava também um instrumento de tortura composto por três estacas cruzadas ou paus (do latim palu)». De facto, o substantivo trabalho tem origem no verbo trabalhar, que vem do latim vulgar tripaliare, significando martirizar com o tripalium, através da antiga forma verbal trebalhar. O vocábulo em questão tem origem no baixo latim, podendo ser datado do Concílio de Auxerre, realizado no ano de 578. Ficamos entendidos? Ou andarão os linguistas e historiadores a levantar ficções?
(…) Escreve J.F., comentando o facto de hoje haver anarquistas que criticam sem conciliações o trabalho compulsivo, que «na história do anarquismo nem sempre foi assim (...) sob o paradigma da luta sindical operária, o trabalho era apreciado e encarecido».
J.F. parece ignorar aquilo que se sabe: a história do anarquismo não é apenas feita pelo paradigma da luta sindical e operária, nem sequer por uma única perspectiva de encarar esse mesmo paradigma.
Para os anarquistas que procuravam a unicidade do indivíduo, isto é, a originalidade de todo o ser humano, não se tratava de reconhecer os méritos do trabalho e sobre eles fundar a organização social. Tratava-se de eliminar de uma vez por todas o trabalho, actividade compulsiva, degradante, repressiva e destruidora das condições mais elementares da vida. Alguns (sem todavia se aperceberem da armadilha que a simples perspectiva do prazer implica), basearam o comportamento pessoal e a organização social no «direito ao prazer», título de um texto de José María Blázquez de Pedro, poeta anarquista catalão do início do século XX. E na opinião dos anarquistas naturistas «é preciso abandonar a prática do trabalho», como o formulou Émile Gravelle, fundador do naturismo libertário no final do século XIX, para que exista «uma relação mais harmoniosa com o meio ambiente». Foucques Jeune, outro dos naturistas anarquistas, defendeu o «direito ao pensamento» em oposição ao «direito ao trabalho».
Mesmo os sindicalistas libertários sentiam horror e ódio pelo trabalho, quando este era imposto, sujo, humilhante, perigoso, excessivo, repugnante e mal retribuído. Só quando fosse livre, honrado, respeitado e considerado é que, como refere J.F., «era apreciado e encarecido». É desta aspiração, intrinsecamente ligada a dois princípios do anarquismo, a necessidade de liberdade e de actividade, que nasce o orgulho de saber fazer, o qual não se concilia com a existência de possuidores e desapossados, dirigentes e dirigidos. Segundo os sindicalistas libertários, qualquer sociedade estatal e capitalista jamais será capaz de retribuir o trabalho com justiça, considerando necessário «abandonar qualquer ideia de salariado, quer seja em moeda ou em senhas de trabalho». Kropotkine propôs um horário de trabalho para toda a gente de quatro ou cinco horas semanais, o que, convenhamos, alteraria radicalmente o significado do trabalho como hoje ele é entendido. (…).
Não aceitando o sentido que dou à ordem social, o meu contraditor acusa-me de a depreciar. Mas qual é a ordem social que as Teses Sobre o Trabalho visam? Abreviando: a ordem – aquilo a que se chama ordem – é a coerção e a hierarquização nas relações sociais, é a guerra permanente, o trabalho assalariado e o seu complemento, o desemprego, é a monetarização da presente existência à custa da degradação das condições de vida social e biológica em todo o planeta.
Os anarquistas dos séculos XIX e XX responderam em seu tempo a esta questão; e embora as condições sociais, económicas e políticas se tenham modificado pelo desenvolvimento técnico, estatal e capitalista, alterando bastante a relação com o trabalho, muitas dessas respostas continuam a fazer sentido. «A ordem» – escreveu Kropotkine – «assenta numa maioria de seres humanos que trabalham para que um punhado de parasitas possa usufruir do luxo e dos prazeres e satisfaça as paixões mais execráveis. A ordem é a privação, para essa imensa maioria, de tudo o que corresponde às condições necessárias a uma vida saudável. É esta a ordem.»
(…) J.F. diz que eu faço a apologia da natureza. Admito que sou, desde há muito, um defensor da natureza, porém, sem a divinizar. Não concordo com a submissão do ser humano à natureza ou a redução do ser humano a pura natureza, porque isso implicaria uma redução do pensamento em direcção a formas irracionais. Todavia, tal como os anarquistas naturistas, vegetarianos, dietéticos, verdes, bem como muitos ecologistas, defendo que a liberdade do ser humano não pode advir de um apoderamento colectivo das forças da natureza, mas sim da adaptação a essas mesmas forças. Para a maioria dos libertários de diferentes tendências, tal como para os marxistas (comunistas, socialistas, social-democratas), ou para os liberais e democratas de todos os matizes, crentes obstinados no progresso (como J.F. demonstra ser), a separação entre o ser humano e a natureza seria superada através da ciência e da razão. Para todos eles, organizar a sociedade significa organizá-la de modo científico, caminhando os seres humanos de mãos dadas com a ciência rumo à liberdade e à abundância. Tal progresso significa que a natureza é pasto exclusivo das forças produtivas e paisagem da escravatura salarial. Como se os humanos fossem a única espécie existente no planeta e as instituições de dominação fossem a única forma de opressão a considerar. A exploração e destruição da natureza são o outro lado da exploração e opressão do homem pelo homem. Também não é somente o Estado que permite o longo prolongamento do actual modo de existência ou a sua expansão por todo o planeta. Para além da forma social, política e económica existente, é preciso ter presente as técnicas de extracção e gestão da energia, de alimentação (a tal merda que engolimos todos os dias), mesmo que isso se faça de «forma sustentável», uma vez que essa sustentabilidade que agora propõem continua a implicar a domesticação da natureza e o ecocídio. A degradação das condições de vida social e biológica no planeta (desaparecimento das florestas, contaminação ambiental e alimentar, mudanças climáticas, doenças ou fenómenos degenerativos produzidos nas plantas, animais e espécie humana) são consequência da colonização tecnológica da sociedade, ou seja, da domesticação do homem pela tecnofilia. Assim, do meu ponto de vista, encontrando-se o trabalho alicerçado na submissão da natureza ao progresso humano, a ideia de um trabalho realizador, promotor de autonomia, é pura fantasia. Se continuarmos a encarar a natureza como um lugar passivo onde se desenrola a luta (ou, mais propriamente, a guerra) pela existência humana, sob a dominação ou não do Estado, nunca poderemos apreender que, por exemplo, a liberdade e a autonomia dependem de uma relação pacífica com a biosfera. Se a natureza se deve humanizar – como já afirmavam os anarquistas naturianistas do século XIX –, o homem, quanto a ele, deve naturalizar-se.
O ser humano não se humaniza com o trabalho, é o contrário que acontece. Deveria estar aqui bem claro que o trabalho subentende a apropriação, por quem manda, das faculdades, energias e realizações dos que nessa relação se encontram na situação de súbditos. Tomar posse dos actos produtivos de alguém é o mesmo que apoderar-se do seu tempo, dirigindo-o para a execução das tarefas lucrativas. Durante uma parte importante das vinte e quatro horas que constituem um dia, semelhante processo transforma em proprietários dessas pessoas os indivíduos que detêm um tal poder. Exercem o direito de propriedade sobre os indivíduos da mesma maneira que o controlo e o poder de decisão legal sobre um animal ou objecto inanimado implicam um direito de propriedade. Que uma pessoa venda o seu tempo de trabalho e passe determinado tempo em deslocações obrigatórias e no consumo de mercadorias são as actividades que caracterizam a vida quotidiana do nosso tempo. Mas não são manifestações intemporais da natureza humana.
Os seres humanos aceitam dinheiro como equivalente da vida, não porque isso decorra da sua natureza de humanos, mas porque vender as suas competências no mercado é a única possibilidade de sobrevivência (policialmente administrada) que lhes resta no contexto do capitalismo. Aliás, a actividade humana só é considerada «produtiva» e «socialmente útil» quando é actividade vendida. Neste contexto civilizacional, o ser humano só «constrói humanidade», para utilizar uma expressão de J.F., quando vende o seu tempo e a sua vida. Deste modo, a sua actividade enquanto trabalhador reveste o carácter de uma prostituição universal. O trabalho é apenas um meio de «ganhar dinheiro», a vida é tão-somente uma forma de ir sobrevivendo. E isto, João Freire, não é brincadeira nenhuma, é muito prosaicamente «o pão nosso de cada dia».”

5 comentários:

David Amaral disse...

Simplificando (demasiado?): O "trabalho" em si não é a causa de mal. Mas o "trabalhador" enquanto se constitui como sujeito de relações de poder instituídas. A questão será constituir um modelo de agir em que o trabalho seja investimento bioenergético no desenvolvimento individual, na aprendizagem e no bem colectivo. Na minha opinião devemos procurar um modelo alternativo ao actual que está baseado em instituições que corrompem as condições de emancipação da maior parte da população através de mecanismos financeiros e de controlo de recursos, é um modelo baseado no esgotamento de possibilidades superiores da actividade humana, a todos os níveis.

paula disse...

Apoiado!

E se nos desempregassemos? (a questão é séria!)

David Amaral disse...

acho que teríamos que "trabalhar" noutro sentido: necessitamos de não esquecer a experiência das gerações anteriores, as dificuldades que passaram, sobretudo durante a ditadura, por não ter acesso a meios de subsistência nem a informação, não esquecer os bons conhecimentos que temos, e lutar por um futuro melhor:
Apoio completamente a ideia de curta a dependência de megacorporações e bancos centrais e instituições afins, mas isso tem de ser feito de uma maneira inteligente, não é possível isso, se não existir o sustento de meios de sobrevivência básica, ideias reais e mecanismos que nos permitam lutar por uma sociedade melhor.

ana disse...

Texto de grande lucidez , a questão será então como achar alternativas...

paula disse...

Como refundar o trabalho?
Como criar um modelo alternativo em que as pessoas possam de forma não coerciva, mas criativa, gerir o seu tempo de trabalho e a sua capacidade de actividade? Será que o abandono voluntário desta forma de trabalho servil resultaria numa desordem civil e individual? Mas essa desordem interna e externa já existe e é altamente prejudicial ao ser humano e à natureza.Ou as pessoas já estão suficientemente evoluidas para se organizarem em modelos comunitários de auto gestão? Cada um tem um potencial fantástico de vontade de fazer coisas, de aprender, de criar, de realização. Acabar com esta forma de trabalho não é um apelo à inércia, pelo contrário. É possibilitar uma realização consciente e feliz disso que cada um gosta e quer fazer, mas que não faz, pois tem de ir "trabalhar". E aqueles que ainda não conhecem as suas potencialidades criativas, sempre poderiam cooperar com outros mais determinados.
Enfim, acredito que o ser humano tem realmente potencial para se refundar completamente, é necessário apenas acreditar!

Enviar um comentário

Caros amigos

Permitam que partilhe convosco um texto, um pouco longo, é certo, mas pertinente. Pensei que o poderia enviar ao grupo de política, como uma contribuição à sua reflexão, mas depois decidi que interessa a todos nós, grupo que se assume como aberto a diferentes convicções. Afinal existem muitos portugueses que pensam sobre o estado do mundo!
O texto foi retirado do último número da revista “Utopia”, revista de intervenção anarquista e surge como resposta às criticas levantadas pelo sociólogo João Freire às “21 Teses Sobre o Trabalho” de José Tavares, o autor do texto que passo a transcrever (não na sua totalidade).

“TRABALHO, UMA NOÇÃO QUESTIONADA

O dia em que os donos e senhores da ordem social existente admitirem que a sociedade poderia ser muito diferente daquilo que é nunca chegará. Mais depressa hão-de fundar uma enésima ideologia para provar que esta sociedade (hierarquizada, capitalista, tecnofílica) é a única possível, que não se pode conceber a existência humana sem trabalho assalariado e que uma pessoa, para «ganhar a vida», tem de submeter-se a esse trabalho. Ou seja, que o mundo só assim funciona; que as coisas são «naturalmente» assim.
Ressalvadas as devidas proporções, essa ideia existiu também na mente de muitos revolucionários, de diferentes tendências, inclusive entre libertários ou comunistas que travaram encarniçados combates contra os donos do trabalho. Também para eles as coisas eram assim. De resto, a maioria das pessoas é levada a pensar dessa maneira. É sem dúvida difícil para qualquer um de nós conceber um mundo onde possamos ser donos do nosso próprio tempo, onde não tenhamos de vender algo de nós próprios em troca de dinheiro e de sobreviver consumindo mercadorias. Na impossibilidade de se conceber a vida de outra maneira, são inevitáveis o suplício, a dor, a injustiça, a opressão, expressões que reflectem o modo como funciona o cérebro da grande maioria dos humanos.
Mas pode também conceber-se um mundo em que não exista o trabalho – venda e aluguer do corpo e do tempo, obrigação e dependência, aniquilamento psíquico (e concomitante destruição da biosfera).
Esta contingência crítica manifesta-se mais nitidamente na presente sociedade, que é, por excelência, a sociedade do trabalho, do consumismo, da destruição dos meios elementares da vida e de um neo-autoritarismo um pouco peculiar. E manifesta-se não só porque os seres humanos podem pensar, formulando formas de emancipação, mas também porque as condições reais do trabalho levam as pessoas à prática de um permanente absentismo, de faltas de pontualidade, de supostas doenças, de furtos, de pequenas sabotagens e de outras formas de aversão ao trabalho. Por outro lado, é difícil não vermos que uma parte, pelo menos, das mercadorias produzidas corresponde a desperdícios inúteis, a alimentos desvitalizados ou mesmo nefastos, à construção de habitats desastrosos e concentracionários, ao fabrico de uma crescente panóplia de objectos patológicos. Tal como é difícil não sentir a catástrofe ecológica que está a acontecer por força da industrialização destrutiva e do feiticismo mercantilista, ou não saber que o «trabalho para todos» foi transformado na ilusão de que o trabalho é um privilégio a que somente «os eleitos» têm acesso. E no entanto o trabalho continua a ser aquilo que sempre foi: um instrumento nas mãos de poucos para explorar e supliciar a vida dos restantes.
João Freire (a seguir designado J.F.) desaprecia e tenta retirar sentido às críticas anarquistas, nomeadamente àquelas que exprimi em relação ao trabalho compulsivo. Começa por acusar de ser suposta a ligação entre a palavra trabalho e o termo latino tripalium. Mas até mesmo o professor e investigador José Machado Pais, doutorado em sociologia e licenciado em economia, tem outro entendimento: «o termo trabalho – escreve ele – tem raízes etimológicas no latim: trabalho dizia-se tripalium, que designava também um instrumento de tortura composto por três estacas cruzadas ou paus (do latim palu)». De facto, o substantivo trabalho tem origem no verbo trabalhar, que vem do latim vulgar tripaliare, significando martirizar com o tripalium, através da antiga forma verbal trebalhar. O vocábulo em questão tem origem no baixo latim, podendo ser datado do Concílio de Auxerre, realizado no ano de 578. Ficamos entendidos? Ou andarão os linguistas e historiadores a levantar ficções?
(…) Escreve J.F., comentando o facto de hoje haver anarquistas que criticam sem conciliações o trabalho compulsivo, que «na história do anarquismo nem sempre foi assim (...) sob o paradigma da luta sindical operária, o trabalho era apreciado e encarecido».
J.F. parece ignorar aquilo que se sabe: a história do anarquismo não é apenas feita pelo paradigma da luta sindical e operária, nem sequer por uma única perspectiva de encarar esse mesmo paradigma.
Para os anarquistas que procuravam a unicidade do indivíduo, isto é, a originalidade de todo o ser humano, não se tratava de reconhecer os méritos do trabalho e sobre eles fundar a organização social. Tratava-se de eliminar de uma vez por todas o trabalho, actividade compulsiva, degradante, repressiva e destruidora das condições mais elementares da vida. Alguns (sem todavia se aperceberem da armadilha que a simples perspectiva do prazer implica), basearam o comportamento pessoal e a organização social no «direito ao prazer», título de um texto de José María Blázquez de Pedro, poeta anarquista catalão do início do século XX. E na opinião dos anarquistas naturistas «é preciso abandonar a prática do trabalho», como o formulou Émile Gravelle, fundador do naturismo libertário no final do século XIX, para que exista «uma relação mais harmoniosa com o meio ambiente». Foucques Jeune, outro dos naturistas anarquistas, defendeu o «direito ao pensamento» em oposição ao «direito ao trabalho».
Mesmo os sindicalistas libertários sentiam horror e ódio pelo trabalho, quando este era imposto, sujo, humilhante, perigoso, excessivo, repugnante e mal retribuído. Só quando fosse livre, honrado, respeitado e considerado é que, como refere J.F., «era apreciado e encarecido». É desta aspiração, intrinsecamente ligada a dois princípios do anarquismo, a necessidade de liberdade e de actividade, que nasce o orgulho de saber fazer, o qual não se concilia com a existência de possuidores e desapossados, dirigentes e dirigidos. Segundo os sindicalistas libertários, qualquer sociedade estatal e capitalista jamais será capaz de retribuir o trabalho com justiça, considerando necessário «abandonar qualquer ideia de salariado, quer seja em moeda ou em senhas de trabalho». Kropotkine propôs um horário de trabalho para toda a gente de quatro ou cinco horas semanais, o que, convenhamos, alteraria radicalmente o significado do trabalho como hoje ele é entendido. (…).
Não aceitando o sentido que dou à ordem social, o meu contraditor acusa-me de a depreciar. Mas qual é a ordem social que as Teses Sobre o Trabalho visam? Abreviando: a ordem – aquilo a que se chama ordem – é a coerção e a hierarquização nas relações sociais, é a guerra permanente, o trabalho assalariado e o seu complemento, o desemprego, é a monetarização da presente existência à custa da degradação das condições de vida social e biológica em todo o planeta.
Os anarquistas dos séculos XIX e XX responderam em seu tempo a esta questão; e embora as condições sociais, económicas e políticas se tenham modificado pelo desenvolvimento técnico, estatal e capitalista, alterando bastante a relação com o trabalho, muitas dessas respostas continuam a fazer sentido. «A ordem» – escreveu Kropotkine – «assenta numa maioria de seres humanos que trabalham para que um punhado de parasitas possa usufruir do luxo e dos prazeres e satisfaça as paixões mais execráveis. A ordem é a privação, para essa imensa maioria, de tudo o que corresponde às condições necessárias a uma vida saudável. É esta a ordem.»
(…) J.F. diz que eu faço a apologia da natureza. Admito que sou, desde há muito, um defensor da natureza, porém, sem a divinizar. Não concordo com a submissão do ser humano à natureza ou a redução do ser humano a pura natureza, porque isso implicaria uma redução do pensamento em direcção a formas irracionais. Todavia, tal como os anarquistas naturistas, vegetarianos, dietéticos, verdes, bem como muitos ecologistas, defendo que a liberdade do ser humano não pode advir de um apoderamento colectivo das forças da natureza, mas sim da adaptação a essas mesmas forças. Para a maioria dos libertários de diferentes tendências, tal como para os marxistas (comunistas, socialistas, social-democratas), ou para os liberais e democratas de todos os matizes, crentes obstinados no progresso (como J.F. demonstra ser), a separação entre o ser humano e a natureza seria superada através da ciência e da razão. Para todos eles, organizar a sociedade significa organizá-la de modo científico, caminhando os seres humanos de mãos dadas com a ciência rumo à liberdade e à abundância. Tal progresso significa que a natureza é pasto exclusivo das forças produtivas e paisagem da escravatura salarial. Como se os humanos fossem a única espécie existente no planeta e as instituições de dominação fossem a única forma de opressão a considerar. A exploração e destruição da natureza são o outro lado da exploração e opressão do homem pelo homem. Também não é somente o Estado que permite o longo prolongamento do actual modo de existência ou a sua expansão por todo o planeta. Para além da forma social, política e económica existente, é preciso ter presente as técnicas de extracção e gestão da energia, de alimentação (a tal merda que engolimos todos os dias), mesmo que isso se faça de «forma sustentável», uma vez que essa sustentabilidade que agora propõem continua a implicar a domesticação da natureza e o ecocídio. A degradação das condições de vida social e biológica no planeta (desaparecimento das florestas, contaminação ambiental e alimentar, mudanças climáticas, doenças ou fenómenos degenerativos produzidos nas plantas, animais e espécie humana) são consequência da colonização tecnológica da sociedade, ou seja, da domesticação do homem pela tecnofilia. Assim, do meu ponto de vista, encontrando-se o trabalho alicerçado na submissão da natureza ao progresso humano, a ideia de um trabalho realizador, promotor de autonomia, é pura fantasia. Se continuarmos a encarar a natureza como um lugar passivo onde se desenrola a luta (ou, mais propriamente, a guerra) pela existência humana, sob a dominação ou não do Estado, nunca poderemos apreender que, por exemplo, a liberdade e a autonomia dependem de uma relação pacífica com a biosfera. Se a natureza se deve humanizar – como já afirmavam os anarquistas naturianistas do século XIX –, o homem, quanto a ele, deve naturalizar-se.
O ser humano não se humaniza com o trabalho, é o contrário que acontece. Deveria estar aqui bem claro que o trabalho subentende a apropriação, por quem manda, das faculdades, energias e realizações dos que nessa relação se encontram na situação de súbditos. Tomar posse dos actos produtivos de alguém é o mesmo que apoderar-se do seu tempo, dirigindo-o para a execução das tarefas lucrativas. Durante uma parte importante das vinte e quatro horas que constituem um dia, semelhante processo transforma em proprietários dessas pessoas os indivíduos que detêm um tal poder. Exercem o direito de propriedade sobre os indivíduos da mesma maneira que o controlo e o poder de decisão legal sobre um animal ou objecto inanimado implicam um direito de propriedade. Que uma pessoa venda o seu tempo de trabalho e passe determinado tempo em deslocações obrigatórias e no consumo de mercadorias são as actividades que caracterizam a vida quotidiana do nosso tempo. Mas não são manifestações intemporais da natureza humana.
Os seres humanos aceitam dinheiro como equivalente da vida, não porque isso decorra da sua natureza de humanos, mas porque vender as suas competências no mercado é a única possibilidade de sobrevivência (policialmente administrada) que lhes resta no contexto do capitalismo. Aliás, a actividade humana só é considerada «produtiva» e «socialmente útil» quando é actividade vendida. Neste contexto civilizacional, o ser humano só «constrói humanidade», para utilizar uma expressão de J.F., quando vende o seu tempo e a sua vida. Deste modo, a sua actividade enquanto trabalhador reveste o carácter de uma prostituição universal. O trabalho é apenas um meio de «ganhar dinheiro», a vida é tão-somente uma forma de ir sobrevivendo. E isto, João Freire, não é brincadeira nenhuma, é muito prosaicamente «o pão nosso de cada dia».”

5 comentários:

David Amaral disse...

Simplificando (demasiado?): O "trabalho" em si não é a causa de mal. Mas o "trabalhador" enquanto se constitui como sujeito de relações de poder instituídas. A questão será constituir um modelo de agir em que o trabalho seja investimento bioenergético no desenvolvimento individual, na aprendizagem e no bem colectivo. Na minha opinião devemos procurar um modelo alternativo ao actual que está baseado em instituições que corrompem as condições de emancipação da maior parte da população através de mecanismos financeiros e de controlo de recursos, é um modelo baseado no esgotamento de possibilidades superiores da actividade humana, a todos os níveis.

paula disse...

Apoiado!

E se nos desempregassemos? (a questão é séria!)

David Amaral disse...

acho que teríamos que "trabalhar" noutro sentido: necessitamos de não esquecer a experiência das gerações anteriores, as dificuldades que passaram, sobretudo durante a ditadura, por não ter acesso a meios de subsistência nem a informação, não esquecer os bons conhecimentos que temos, e lutar por um futuro melhor:
Apoio completamente a ideia de curta a dependência de megacorporações e bancos centrais e instituições afins, mas isso tem de ser feito de uma maneira inteligente, não é possível isso, se não existir o sustento de meios de sobrevivência básica, ideias reais e mecanismos que nos permitam lutar por uma sociedade melhor.

ana disse...

Texto de grande lucidez , a questão será então como achar alternativas...

paula disse...

Como refundar o trabalho?
Como criar um modelo alternativo em que as pessoas possam de forma não coerciva, mas criativa, gerir o seu tempo de trabalho e a sua capacidade de actividade? Será que o abandono voluntário desta forma de trabalho servil resultaria numa desordem civil e individual? Mas essa desordem interna e externa já existe e é altamente prejudicial ao ser humano e à natureza.Ou as pessoas já estão suficientemente evoluidas para se organizarem em modelos comunitários de auto gestão? Cada um tem um potencial fantástico de vontade de fazer coisas, de aprender, de criar, de realização. Acabar com esta forma de trabalho não é um apelo à inércia, pelo contrário. É possibilitar uma realização consciente e feliz disso que cada um gosta e quer fazer, mas que não faz, pois tem de ir "trabalhar". E aqueles que ainda não conhecem as suas potencialidades criativas, sempre poderiam cooperar com outros mais determinados.
Enfim, acredito que o ser humano tem realmente potencial para se refundar completamente, é necessário apenas acreditar!

Enviar um comentário